O que diz a ciência: novas recomendações para melhorar o intestino preso
Diretrizes recentes apontam que nem toda fibra ajuda a resolver a constipação crônica, também conhecida como intestino preso
Quem sofre com intestino preso certamente já ouviu a clássica recomendação: aumentar o consumo de fibras. Embora o conselho não esteja errado, novas evidências científicas indicam que a solução não é tão simples.
Diretrizes recém-publicadas pela Associação Dietética Britânica (BDA) mostram que, no caso da constipação crônica, mais importante do que a quantidade é o tipo de fibra consumida.
Após analisar dezenas de estudos, os especialistas concluíram que não há evidências sólidas de que uma dieta genericamente rica em fibras resolva o problema. Em alguns casos, o aumento indiscriminado pode até provocar gases, inchaço e piora dos sintomas.
“A constipação crônica raramente se resolve só comendo mais fibras. Sabemos que o tipo de fibra, o contexto intestinal e o funcionamento do intestino são determinantes”, diz a nutróloga e gastroenterologista Christian Kelly.
Entre os alimentos e compostos com melhores evidências estão o psyllium, o kiwi, o figo, a manga, o farelo de aveia, a linhaça, o pão de centeio e a ameixa seca. A nutróloga Sandra Fernandes analisa que esses alimentos têm fibras e propriedades funcionais específicas, sendo melhor toleradas e mais eficazes.
“Esses alimentos não dependem apenas de volume, mas de fermentação, viscosidade e retenção hídrica. O que a evidência mostra é que fibras insolúveis isoladas (como o farelo de trigo) podem piorar dor, gases e empachamento. Já fibras solúveis e fermentáveis melhoram frequência, esforço evacuatório e consistência. Portanto, qualidade é melhor do que quantidade”.
O nutricionista Júlio Bordin lembra que as fibras alimentares são essenciais para a saúde intestinal. Elas ajudam a formar e dar consistência às fezes, favorecem o trânsito intestinal e promovem o equilíbrio da microbiota, que participa da digestão, da absorção de nutrientes e da imunidade.
“O funcionamento intestinal é multifatorial. Além do consumo adequado de fibras, fatores como hidratação, alimentação variada e equilibrada e estilo de vida, como a prática regular de atividade física, sono adequado e manejo do estresse, têm papel essencial. Todos esses aspectos interagem para manter a motilidade intestinal, a saúde da microbiota e o intestino funcionando de forma eficiente”.
Saiba mais
Fibras solúveis viscosas e/ou fermentáveis
Psyllium, kiwi, farelo de aveia e pão de centeio.
Benefícios
Aumentam o teor de água das fezes, melhoram a consistência e a frequência evacuatória. Além disso, estimulam a microbiota benéfica (produção de SCFAs).
Fibras + compostos bioativos
Ameixa seca (fibra + sorbitol + polifenóis), figo e manga.
Benefícios
Efeito osmótico suave e menor risco de gases excessivos quando usados com moderação.
Fibras mistas (solúvel + insolúvel)
Linhaça.
Benefícios
Facilita o trânsito intestinal e auxilia na lubrificação fecal.
O que a evidência mostra:
Fibras insolúveis isoladas (ex.: farelo de trigo) podem piorar dor, gases e empachamento, enquanto fibras solúveis e fermentáveis melhoram frequência, esforço evacuatório e consistência.
Sinais de alerta
Alguns sinais indicam que a constipação não deve ser tratada apenas com mudanças na dieta e precisam de avaliação médica:
Sangue nas fezes; perda de peso não intencional; anemia e dor abdominal persistente ou progressiva;
E também constipação de início recente em pessoas acima dos 50 anos; histórico familiar de câncer colorretal ou doenças inflamatórias intestinais e necessidade frequente de laxantes para evacuar.
Qual é o tratamento adequado?
O tratamento adequado envolve uma abordagem multifatorial, com ingestão hídrica adequada; regularidade alimentar; estímulo ao reflexo gastrocólico (respeitar o horário de evacuação); atividade física; e, em muitos casos, avaliação da microbiota e do trânsito intestinais.
Tratamento individualizado e progressivo
Ajuste da dieta, priorizando fibras de melhor qualidade, introduzidas de forma gradual;
Suplementos de fibra específicos, como psyllium, quando indicados;
Laxativos osmóticos, que ajudam a hidratar as fezes, em casos selecionados;
Medicamentos que atuam no movimento intestinal, em constipações mais resistentes;
Avaliação de causas associadas, como distúrbios do assoalho pélvico e doenças metabólicas;
uso de medicamentos ou alterações hormonais.
Fonte: Especialistas consultados.
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