Nutricionistas explicam o que muda com a nova pirâmide da alimentação saudável
Com a presença de menos carboidratos, diretrizes colocam carnes, leites e queijos ocupando o mesmo patamar de vegetais
Uma nova pirâmide alimentar foi publicada pelos Estados Unidos na última semana. Com quase 90% dos gastos de saúde destinados ao tratamento de pessoas com doenças crônicas, o documento propõe que os norte-americanos voltem a comer “comida de verdade”.
No novo modelo, a lógica foi reestruturada: carnes, queijos e leite passam a ocupar o mesmo patamar de verduras, legumes e frutas, enquanto a recomendação de consumo de carboidratos foi reduzida.
A mudança integra as “Diretrizes Alimentares para Americanos 2025-2030”. Segundo o texto, mais de 70% dos adultos norte-americanos estão acima do peso ou obesos, e quase um em cada três adolescentes entre 12 e 17 anos tem pré-diabetes.
A nutricionista Polyana Romano Oliosa, doutora em Saúde Coletiva, destaca que a pirâmide antiga priorizava o consumo de carboidratos, ainda que fossem os complexos, presentes em pães, massas e arroz.
Já a nova versão, explica Polyana, inverte essa lógica: orienta a ingestão em menor quantidade de grãos e prioriza o consumo de verduras, legumes e alimentos ricos em proteínas.
Polyana ressalta, porém, que desde o lançamento do Guia Alimentar para a População Brasileira, o país não adota o modelo de pirâmide. A diretriz nacional foca no tipo de alimento (in natura x processado) e leva em consideração a cultura local e a regionalidade.
O nutricionista Julio Bordin destaca que tanto a nova pirâmide dos EUA quanto o Guia Brasileiro se alinham em um ponto fundamental: a recomendação de reduzir ultraprocessados e açúcar, algo também defendido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
“A principal diferença está na abordagem. O Guia Brasileiro valoriza muito o contexto cultural, o preparo dos alimentos e a variedade, enquanto as diretrizes americanas focam mais em ajustes de macronutrientes, como o aumento da proteína. O princípio é parecido, mas a forma de orientar a população é diferente”, conclui o nutricionista.
Fique por dentro
Nova pirâmide alimentar
As novas Diretrizes Alimentares para Americanos 2025-2030 recomendam priorizar dietas baseadas em alimentos integrais e ricos em nutrientes — proteínas, laticínios, vegetais, frutas, gorduras saudáveis (alimentos colocados em destaque) e grãos integrais.
Deve-se ainda reduzir drasticamente alimentos ultraprocessados ricos em carboidratos refinados, açúcares adicionados, excesso de sódio, gorduras prejudiciais e aditivos químicos.
Proteínas e laticínios
O documento recomenda aumentar o consumo de proteína, tendo como meta 1,2–1,6 g de proteína/kg/dia. Deve-se incluir proteínas animais (ovos, aves, peixes, carne vermelha) e vegetais (feijões, lentilhas, leguminosas, nozes, sementes, soja).
Recomenda também laticínios integrais, sem açúcar adicionado, em três porções ao dia.
Frutas e verduras
Reforça a ingestão de vegetais e frutas de variadas cores, sendo três porções ao dia de vegetais e duas de frutas.
Excesso de carne vermelha preocupa
Uma das recomendações da nova pirâmide alimentar norte-americana questionada por especialistas é quanto ao consumo de proteínas. O documento recomenda a ingestão de 1,2 a 1,6 g de proteína por quilo de peso corporal por dia.
“A OMS recomenda limitar o consumo de carne vermelha e processada e de gorduras saturadas para reduzir risco de doenças cardiovasculares e câncer. A nova pirâmide dos Estados Unidos coloca carnes e laticínios integrais em destaque, o que pode contrariar essa posição”, destaca a nutricionista e colunista de A Tribuna, Gabriela Rebello.
Segundo Gabriela, a carne vermelha não processada (bovina, suína e cordeiro) é classificada pela IARC/OMS como “provavelmente carcinogênica” (Grupo 2A). Embora a evidência seja mais limitada, o principal desfecho associado também é o câncer colorretal.
“Por esse motivo, organizações como o WCRF/AICR recomendam moderação no consumo, sugerindo um limite de 350g a 500g por semana (peso cozido)”, completa.
Quanto ao consumo de carne vermelha e o risco de doenças neurológicas, como demência, a neurologista Mariana Grenfell explica que a relação não é consistente.
“Muitos estudos não demonstram associação significativa, e alguns sugerem até ausência de associação/risco quando o consumo é moderado e inserido em um padrão alimentar equilibrado. Esses achados reforçam que o processamento da carne é um fator determinante”.
Do ponto de vista neurológico, segundo a médica, há uma recomendação clara: “Evitar — ou limitar, quando não for possível excluir — o consumo de carnes vermelhas processadas e priorizar padrões alimentares que incluam maior variedade de alimentos não processados, estratégia que tem sido associada a melhor saúde cognitiva ao longo da vida”.
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