"Minha filha parou de andar", diz mãe de adolescente internada por ansiedade
Mãe conta que a filha de 12 anos passou por internação e bateria de exames até médicos apontarem uma causa emocional
Enquanto especialistas alertam para o crescimento dos casos graves de ansiedade entre adolescentes, algumas famílias convivem de perto com os efeitos do transtorno. Foi o que aconteceu com a jornalista Ana Carolina Passos, 51 anos.
No ano passado, a filha dela, Valentina Moura, então com 12 anos, de uma hora para outra deixou de andar por 15 dias. Entre baterias de exames e internação, o diagnóstico apontou para uma causa inesperada: transtorno de ansiedade.
A Tribuna — A partir de que momento você começou a notar que algo não estava bem com a Valentina?
Anna Carolina Passos — Esse é exatamente o ponto mais difícil em tudo o que aconteceu. A gente não notou. Simplesmente, a Valentina parou de andar.
De uma hora para a outra?
Sim. No dia 23 de setembro do ano passado, eu estava trabalhando e recebi uma ligação da escola falando que minha filha tinha caído e que não estava conseguindo andar. Na hora, eu saí e fui buscá-la. Eu achei que ela tivesse machucado a perna. Mas só quando cheguei que entendi. Ela não conseguia mais andar mesmo. Então começou toda a nossa via crucis.
Passamos o dia no hospital, fazendo exames. Ela passou por neurologista, por ortopedista. Não tinha uma explicação. Ela falava que sentia dores nas pernas. Saímos de lá sem nada.
E continuou no mesmo quadro?
Isso. Marcamos uma pediatra, depois um ortopedista. No dia 27, um primo meu, que é neurocirurgião, falou que a gente deveria internar a Valentina, pois poderia ser a síndrome de Guillain-Barré. Fomos para o hospital. Chegou a ser feita uma punção, que não detectou nada. Ela continuou internada, foi feita ressonância do corpo inteiro para investigar tumores e tantos outros exames nesses dias. Não foi detectado nada.
Nesse tempo, ela já vinha sendo acompanhada por uma terapeuta, já que a neurologista falou sobre a possibilidade de ser algo emocional.
E ela demonstrava medo, tristeza?
Não. Até hoje ela diz que não sabe qual foi o gatilho para o que aconteceu. Hoje, a gente pensa em algumas situações pontuais que podem ter acontecido, como possíveis desentendimentos na escola, uma prova em que não foi bem. Mas, de qualquer forma, tudo volta à pergunta inicial que você fez. E como eu, como mãe, não notei que minha filha estava pedindo ajuda? Porque ela estava pedindo ajuda, mesmo quando ela dizia que estava tudo bem.
Você perguntava?
Sim. A gente sempre pergunta: "Filha, está tudo bem?", mas eu acabei colocando o silêncio dela na conta da adolescência. Porque adolescente não gosta de falar e eu também não quis invadir o espaço dela.
Talvez eu tenha respeitado demais o espaço dela e, por conta disso, eu quase perdi minha filha.
E como ela conseguiu se recuperar?
Ela estava internada e ia à fisioterapeuta fazer exercícios para voltar a andar aos poucos. No dia 5 de outubro, quando eu estava na missa, me ligaram para falar que ela tinha tido alta, com encaminhamento para psiquiatra e psicólogo. Ela saiu com andador, mas, quando chegou em casa, foi andando, tateando os móveis, e foi voltando.
E até hoje continua com o acompanhamento?
Sim. Está com psiquiatra, fazendo terapia. De lá para cá, teve duas crises em que parou de andar novamente. Os médicos explicaram que existem vários sintomas diferentes de ansiedade. No caso dela, a ansiedade faz com que o corpo sinta um iminente perigo e, simplesmente, pare, trava. As crises que teve foram mais breves, mas ainda aconteceram. Mas ela segue com melhoras. A psiquiatra disse que está muito melhor, mais autossuficiente, com uma melhor autoestima.
Como mãe, ainda continua se cobrando por não ter percebido?
A gente entra em um looping de culpa. Por isso, uma coisa que fiz junto com ela foi buscar terapia para mim também. Eu tinha que entender aquilo, porque a gente não entende como essa geração é, de fato, mais sensível, e que a gente às vezes precisa ter cuidado com o que falamos. Meu exercício foi mostrar para ela que eu estava ali se ela precisasse, não importava o quanto ela precisasse.
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