Mais de 5 mil idosos têm algum grau de autismo
É o que indica um estudo realizado por faculdade do Paraná. Especialistas dizem que diagnóstico pode favorecer a inclusão
Um estudo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), com base no Censo Demográfico de 2022 do IBGE, indica que 0,86% das pessoas com mais de 60 anos no Estado têm algum grau do Transtorno do Espectro Autista (TEA).
De acordo com o Censo do IBGE, o Espírito Santo tem cerca de 631 mil idosos, o que corresponde a aproximadamente 5,4 mil pessoas nessa faixa etária com TEA.
Já no cenário nacional, o levantamento aponta 306,8 mil brasileiros, também representando 0,86% da população idosa.
Segundo Uiara Raiana Vargas, pesquisadora do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde da PUC-PR e uma das autoras do estudo, os dados reforçam a necessidade de estratégias específicas para identificação e acolhimento dessa população.
“O diagnóstico pode favorecer a inclusão, permitindo que essas pessoas se compreendam melhor e também sejam compreendidas pelos que estão ao redor”.
A pesquisadora ressalta que os dados compilados, embora sejam um marco epidemiológico, esbarram em algumas limitações. Fatores como nível de escolaridade e desconhecimento sobre o TEA também podem influenciar as respostas. Esses e outros fatores contribuem para a subnotificação existente.
“É muito importante fomentarmos a necessidade de diagnóstico, profissionais capacitados e políticas públicas que acolham”.
A geriatra Daniela Barbieri explica que ao longo da vida, muitos adultos e idosos desenvolvem estratégias de compensação que mascaram os sinais do TEA. Assim, a identificação pode ser mais complexa e exige atenção de uma equipe multidisciplinar.
“Os sintomas podem passar como características normais da personalidade, em especial em casos leves. Esses são mais comumente subdiagnosticados”.
Para a psicóloga Kamila Vilela, os sinais precisam ser analisados dentro do contexto da história de vida do indivíduo. Ela destaca que pessoas com TEA não diagnosticado frequentemente recebem diagnósticos equivocados, como depressão ou transtornos de ansiedade, passando por tratamentos que não consideram o funcionamento neurodivergente.
“Isso pode gerar frustração, sensação de fracasso pessoal, exaustão emocional crônica e um histórico de adoecimento psíquico recorrente”, aponta.
Roni Mukamal, superintendente de Medicina Preventiva da MedSênior, ressalta que é importante ter um diagnóstico, mesmo que tardio.
Fique por dentro
TEA
Transtorno do espectro autista (TEA) é uma condição do desenvolvimento do cérebro que afeta a comunicação, a interação social e os comportamentos.
O termo “espectro” indica que o autismo se manifesta de formas diferentes em cada pessoa, desde quadros leves até casos que exigem maior apoio no dia a dia.
Ele acompanha a pessoa ao longo de toda a vida, impactando a forma como ela se comunica, se relaciona, percebe o mundo e organiza seus pensamentos e emoções.
Mesmo quando o diagnóstico acontece tardiamente, ele não deve ser visto como um rótulo, mas como ferramenta de autoconhecimento.
Sinais em idosos
Os principais são referentes a relacionamento e comunicação interpessoal, como menor compreensão da linguagem verbal e não-verbal, principalmente quando há sarcasmo, ironia ou simbolismos.
Além de dificuldade em manter contato visual, isolamento e comportamento evitativo.
Podem haver comportamentos repetitivos ou estereotipados, mais rigidez na rotina ou insistência em fazer coisas de uma maneira específica, ou ainda foco mais intenso em temas específicos.
Algumas pessoas com o transtorno podem manifestar ainda maior sensibilidade a ruídos, luzes, texturas ou mudanças de ambientes.
Menos evidentes
Quando comparados aos sinais em crianças, os sintomas que aparecem em pessoas com mais de 60 anos são menos evidentes pois podem ter desenvolvido estratégias de compensação e minimização ao longo da vida.
Fatores de confusão
Especialistas indicam que os sintomas podem se misturar ou se confundir com outros transtornos mentais, como demência, depressão e até ansiedade.
Limitação auditiva também pode ser um fator que dificulta o diagnóstico.
Conscientização
O primeiro passo é conscientizar, explica Roni Mukamal, superintendente de Medicina Preventiva da MedSênior. Ele acredita que o diagnóstico deve ser feito o mais rápido possível, permitindo que a pessoa se organize e planeje o futuro.
Garantir o conhecimento e educação dos cuidadores, pacientes, profissionais de saúde e população pode fazer toda a diferença para a saúde mental brasileira.
Fonte: Especialistas consultados.
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