Janeiro Branco: planejar a rotina fortalece a saúde emocional
Especialistas destacam que rotina organizada, tempo livre e hábitos saudáveis ajudam a prevenir e controlar a ansiedade em crianças e adolescentes
Em meio a uma geração que enfrenta problemas reais para lidar com sintomas ansiosos, pais se perguntam como ajudar os filhos. Uma das estratégias apontadas por especialistas está na organização da rotina, que, segundo eles, auxilia na saúde emocional.
“Ter uma rotina ajuda a proteger a mente das crianças e dos adolescentes. É importante ter uma ordem no dia, com horários de acordar e de se alimentar mais ou menos pré-estabelecidos, com uma ordem natural do que deve ser feito, com horários de lazer e de afazeres domésticos e escolares”, recomenda a pediatra Bruna Bressanelli, especialista em Medicina do Adolescente.
Bruna chama atenção ainda para o tempo de sono, já que dormir pouco pode deixar crianças e adolescentes mais estressados.
A psiquiatra infantil Fernanda Mappa ressalta também que, além de bons hábitos de sono, ter uma rotina bem estruturada – com a introdução desde cedo de atividade física regular, uma alimentação balanceada e momentos de relaxamento em família – tende a ser eficaz no controle emocional.
“(Importante também) rever a agenda de atividades da criança, buscando tempo livre para brincar e para criar”, frisa.
A médica alerta ainda para o fato de que muitos pais entendem que quanto mais oferecem estímulos, mais bem preparados estarão seus filhos para o futuro, e por isso oferecem: aulas de diferentes idiomas, diferentes atividades físicas, aula de programação, aulas de teatro, música, dança. E sempre com uma “pitada” de competição ao redor.
“Isso 'rouba' o tempo livre para o ócio e para a criatividade. Tudo é estruturado e com hora marcada. Repensar essas agendas seria importante nesse início de ano”, recomenda Fernanda.
O psiquiatra da Infância e Adolescência Rodrigo Eustáquio ressalta que o estímulo aos filhos deve acontecer “de forma saudável, permitindo, ao mesmo tempo, que a criança tenha um espaço para brincar, se desenvolver no tempo dela e descansar, tendo segurança emocional, que os pais devem oferecer”.
A psicóloga Henza Rafaela Morandi destaca que a prevenção da ansiedade na infância começa no cuidado cotidiano.
“Em casa, é fundamental oferecer um ambiente emocionalmente seguro, com escuta, afeto, limites claros, rotina previsível e respeito ao tempo de desenvolvimento de cada criança. Valorizar o brincar, o descanso, o ócio e reduzir a hiperexposição às telas são importantes fatores de proteção emocional”, afirma Henza.
Hábitos que reduzem a ansiedade
Organização da rotina
Ter uma rotina com horários mais ou menos definidos para acordar, se alimentar, estudar, realizar tarefas e ter momentos de lazer.
Hábitos saudáveis
A introdução precoce de atividade física regular, alimentação balanceada e momentos de relaxamento em família contribuem para o equilíbrio emocional.
Tempo livre
É essencial revisar a agenda das crianças para garantir tempo livre para brincar, criar e descansar, sem tudo ser estruturado ou com hora marcada.
Estímulo saudável
O estímulo deve respeitar o ritmo da criança, permitindo espaço para descanso, desenvolvimento no próprio tempo e construção de segurança emocional.
“É difícil ver um filho sofrendo”
Desde que a filha era muito pequena, por volta dos 4 anos, que uma professora de 37 já percebia sinais de ansiedade na menina.
A mãe, que não quis se identificar, relatou que evitava, por exemplo, contar com antecedência sobre passeios de fim de semana, já que a filha ficava muito ansiosa e, às vezes, passava mal.
Com a entrada na escola, outros sintomas ficaram mais evidentes na estudante, que hoje está com 14 anos, como dor de barriga antes de provas ou em situações avaliativas.
“O corpo dela demonstrava que algo não ia bem”.
A Tribuna - Quando ela começou a apresentar esses sintomas você logo procurou um médico?
Professora - Conversei primeiro com a pediatra dela e, a partir disso, fui buscando estratégias para lidar com a ansiedade. Na época, eu também estava em terapia comportamental, então aprendi muitas ferramentas que passei a aplicar com ela no dia a dia.
A escola chegou a solicitar um laudo de TDAH, mas o neuropediatra avaliou que não se tratava disso, e sim de dificuldades de planejamento e organização da rotina.
O que fizeram para melhorar os sintomas?
O planejamento e a rotina foram fundamentais. Ela tinha muita dificuldade para começar tarefas e acabava procrastinando, o que aumentava ainda mais a ansiedade. Trabalhar isso ajudou bastante.
Também adotamos estratégias práticas, como a redução do uso de telas. Quando ela era menor, diminuímos bastante o tempo de exposição, e hoje temos uma regra bem clara em casa: nada de telas pelo menos duas horas antes de dormir. Esse tempo é usado para leitura, jogos fora das telas ou conversa. Mesmo nas férias, esse combinado continua valendo.
Como você se sentiu vendo sua filha passar por essa situação?
Não foi um diagnóstico assustador, talvez por eu já ter familiaridade com o tema e porque a pediatra foi muito cuidadosa ao explicar que muitos desses sintomas são comuns em crianças hoje. Ainda assim, é difícil ver um filho sofrendo.
Também foi um processo de aprendizado para mim, de escuta, paciência e construção de cuidado diário. Hoje vejo o quanto pequenas mudanças e atenção constante podem transformar a forma como ela lida com a ansiedade.
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