Polícia procura por acusado de aplicar golpe milionário
Portuário investigado por movimentar R$ 115 milhões prometia para amigos de longa data lucros com venda de aparelhos eletrônicos
Investigado por aplicar golpes de falsos investimentos na compra de aparelhos eletrônicos, um portuário de 40 anos está sendo procurado pela polícia. Segundo as investigações, o suspeito – que morava em Jardim Camburi, em Vitória – teria movimentado em suas contas mais de R$ 115 milhões.
O mandado de prisão preventiva foi expedido na quinta-feira pela 10ª Vara Criminal de Vitória. Na decisão, o magistrado Marcelo Menezes Loureiro afirma que o relatório de Inteligência Financeira é contundente ao apontar movimentações financeiras atípicas e incompatíveis com a renda declarada do réu.
“O modus operandi revela sofisticação e desprezo pelo patrimônio alheio. O réu não apenas captou valores de vítimas sob a falsa promessa de investimentos em produtos Apple, mas estruturou um esquema complexo de lavagem e ocultação de capitais, utilizando-se massivamente de plataformas de apostas esportivas”.
O esquema foi mostrado com exclusividade em reportagem de A Tribuna, no dia 22 de novembro, que ouviu algumas vítimas.
Eles revelaram que o suspeito era conhecido no bairro Jardim Camburi, além de estar sempre em festas e partidas de futevôlei também em Vila Velha.
Dois portuários, que trabalhavam com o investigado há quase 20 anos, revelaram que perderam R$ 424 mil e R$ 40 mil. Outra mulher, de 42 anos, que tinha amigos em comum com o suspeito, também disse ter perdido mais de R$ 400 mil com depósitos.
Para todos, a oferta do portuário era semelhante: ele dizia que estava atuando com a venda de aparelhos como iPhones e MacBooks para lojistas de toda a Grande Vitória. Como as compras tinham altos valores e um lucro “certo”, oferecia participação a amigos para ter “capital de giro”, enquanto supostamente aguardava receber de outros lojistas.
Usando a confiança deles, por anos de amizade, ele recebia depósitos e prometia lucros. Inicialmente, ele chegava a retornar parte de valores, mas depois passava a dar desculpas.
A defesa do investigado não foi localizada. Em novembro do ano passado, o suspeito retornou o contato com a equipe, após a veiculação de reportagem.
Na época, ele disse que não se tratava de golpe, garantindo que os aparelhos existiam e que tinha valores a receber de lojistas. Disse, ainda, que estava passando por dificuldade, após ter sido prejudicado por pessoa do convívio, mas que iria pagar quem devia.
“Queremos que ele pague pelo que fez”, diz uma das vítimas
Ainda no prejuízo após confiar em uma pessoa que consideravam amigo, duas vítimas – também portuários – receberam com expectativa a notícia da expedição do mandado de prisão contra o suspeito.
Uma das vítimas, um portuário de 42 anos, contou que desde o ano passado não consegue mais contato com o “investidor”.
“Estamos aguardando agora que a Justiça seja feita. O que buscamos é tentar receber os valores de volta, além de fazer com que ele pague pelos crimes que cometeu”.
Segundo a vítima, há informações de que o suspeito estava morando em São Paulo e continuava a enganar outras pessoas, pegando dinheiro com a promessa de retorno. “Que ninguém mais seja vítima desses crimes. O que ele fez com a gente não se trata só de perda financeira, mas gerou um sofrimento psicológico também”.
Outra vítima, um conferente portuário, de 40 anos, perdeu mais de R$ 400 mil, com 24 transferências feitas para o suspeito entre os dias 26 de setembro e 2 de outubro. Até hoje, ele não recebeu nada de volta.
“Ele é de uma frieza absurda, não tem sentimentos. É um monstro perverso. Vive em uma realidade paralela e, para sustentá-la, precisa enganar alguém o tempo todo”, afirmou.
Revoltada, a vítima relata que conhecia o suspeito há quase 20 anos, já que passaram no mesmo concurso para trabalhar na área portuária. “Ele implodiu a vida de várias pessoas de bem. Representa o que tem de pior na sociedade”.
Entenda o caso
Investimentos
Um portuário, de 40 anos, é investigado pela Polícia Civil por aplicar golpes de falsos investimentos.
Segundo as vítimas, ele começou há alguns anos a vender aparelhos celulares e notebooks.
Posteriormente disse a amigos e colegas de trabalho que passou a trabalhar também com a venda de aparelhos eletrônicos para lojistas de toda a Grande Vitória.
Segundo ele, trazia muitos aparelhos de São Paulo para repassar aos lojistas, com movimentações grandes de valores.
Alegava também que, como muitas vezes demorava para receber de lojistas, precisava de capital de giro para garantir novas encomendas. Por isso, oferecia investimentos para os amigos, com a promessa de na semana seguinte dividir o lucro das vendas.
Retornos
Segundo as vítimas, as promessas de lucro giravam entre 5% e 10%, na maioria dos casos.
Para alguns amigos “investidores”, ele retornava inicialmente valores, para ganhar sua confiança.
Depois, ia pedindo cada vez mais para “novos supostos investimentos”.
Como as vítimas eram pessoas conhecidas dele, todas confiavam.
Ostentação
O suspeito enviava fotos com dinheiro, aparelhos, em aeroportos e em shoppings para as vítimas.
Sempre aparentava uma boa vida e chegava a mostrar a movimentação bancária para os amigos, dizendo estar ganhando muito com as vendas.
Atrasos
Entre agosto e setembro do ano passado, vítimas relatam atrasos e uma série de desculpas para não retornar os valores acordados.
Segundo elas, o portuário respondia às mensagens inicialmente com histórias de atrasos com um fornecedor ou problema com o pagamento, mas garantindo que iria devolver.
Depois, parou de responder e teria bloqueado as vítimas.
Vítimas
Entre as vítimas, duas delas perderam mais de R$ 400 mil com o golpe. Outra tem o prejuízo estimado em R$ 40 mil.
Os três foram ouvidos pela reportagem do jornal A Tribuna, publicada com exclusividade em novembro do ano passado.
outro “investidor” do esquema, amigo do suspeito, afirmou que teve prejuízo de mais de R$ 1 milhão.
Investigação
A Polícia Civil informou que o caso segue sob investigação da Delegacia Especializada de Crimes de Defraudações e Falsificações (Defa).
Até o momento, cinco vítimas procuraram a unidade para registrar ocorrência.
O prejuízo delas soma mais de R$ 2 milhões.
Segundo as investigações, análises das movimentações financeiras do investigado apontam que ele movimentou entre agosto de 2022 e setembro de 2025 mais de R$ 115 milhões – o que seria incompatível com a renda e valores declarados.
Mandado de prisão
Na última quinta-feira, um mandado de prisão foi expedido pela 10ª Vara Criminal de Vitória.
Segundo a decisão, a “gravidade da conduta extrapola o tipo penal básico do estelionato”.
Afirma, ainda, que o modus operandi revela sofisticação e desprezo pelo patrimônio alheio.
“O réu não apenas captou valores de vítimas sob a falsa promessa de investimentos em produtos Apple, mas estruturou um esquema complexo de lavagem e ocultação de capitais, utilizando-se massivamente de plataformas de apostas esportivas (“bets”) para pulverizar os ativos , além de realizar depósitos fracionados para burlar o sistema financeiro.
A decisão ainda revela que há notícias de que o réu continuou a solicitar aportes financeiros mesmo quando já estava inadimplente com diversas vítimas.
Além disso, vítimas teriam relatado que o acusado “sumiu” e estaria providenciando documentação para sair do País.
Até ontem, ele ainda não havia sido localizado.
Fonte: Vítimas, Polícia Civil e informações do mandado de prisão.
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