Fraudes digitais: hackers vendem cartões clonados a partir de R$ 40 na internet
Limites oferecidos por criminosos chegam a R$ 10 mil. Transações costumam ocorrer em grupos fechados ou plataformas de fora
Na vitrine invisível do mundo virtual, cartões de crédito e débito clonados são negociados como mercadorias. Hackers os anunciam por até R$ 100 e atraem interessados com a oferta de limites que podem chegar a R$ 10 mil.
A comercialização costuma ocorrer em grupos fechados de aplicativos de mensagens, como o Telegram, ou em plataformas estrangeiras.
Em um dos anúncios aos quais a reportagem teve acesso, eles mostram a diferença de valores. Por exemplo, para quem deseja crédito de R$ 800 a R$ 1 mil, o cartão custa R$ 40, quantia que vai aumentando conforme o limite de crédito.
Não há um limite fixo de compras, mas, normalmente, os criminosos utilizam o cartão por um período de três a cinco dias. Isso porque, segundo o especialista em Segurança da Informação, Mateus Gomes, após a realização da primeira transação fraudulenta, a instituição financeira costuma identificar movimentações fora do perfil do consumidor e efetuar o bloqueio do cartão.
O especialista em tecnologia da informação Eduardo Pinheiro explica que os criminosos obtêm os dados dos cartões por meio de vazamentos de informações, golpes virtuais e compras suspeitas.
Com essas informações, eles passam a utilizá-las em diferentes tipos de fraudes, inclusive tentando cadastrar os cartões em carteiras digitais para realizar transações sem o conhecimento da vítima.
“Os sites clonados são aliados desse tipo de crime. Eles imitam lojas virtuais e páginas de bancos para capturar dados sensíveis, como número do cartão, CPF e até códigos de confirmação. Não se trata de 'mágica do NFC (Near Field Communication ou Comunicação por Campo de Proximidade)', mas de engenharia social aliada ao roubo de credenciais”.
Mas há um ponto a ser considerado: “Apenas com os dados do cartão — número, data de validade e até o CVV — o criminoso, em geral, não consegue criar um cartão físico funcional para pagamentos por aproximação. Isso porque o pagamento contactless (sem contato) depende de elementos criptográficos presentes no chip do cartão, como chaves e mecanismos de segurança, que não estão incluídos nos dados impressos”.
O economista Roberto Vertamatti alerta que esse tipo de fraude é uma ameaça real. “A clonagem física do cartão também acontece, mas esse novo formato de crime está aumentando muito. Com a IA (Inteligência Artificial), os riscos aumentam de forma gigantesca”.
Investimento em tecnologia contra fraudes, diz associação
A Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) informou que o sistema de cartões no Brasil é um dos mais evoluídos do mundo e conta com amplo investimento em tecnologias de combate a fraudes, o que possibilita um ambiente cada vez mais seguro aos consumidores, que realizam mais de 120 milhões de transações com cartões por dia.
“Esse esforço já mostra resultados concretos: em 2024, o índice de fraude caiu 13%. As empresas de cartão possuem processos modernos de autenticação, como a tokenização e o protocolo 3DS 2.0, que ajudam a confirmar a legitimidade da compra, além de sistemas de prevenção que usam inteligência artificial para monitorar em tempo real o comportamento de uso do cartão, podendo detectar transações indevidas e notificar o cliente a cada pagamento realizado. Todas as empresas do setor adotam protocolos internacionais de segurança e armazenamento de dados”.
A Abecs recomenda que caso perceba qualquer cobrança indevida na fatura ou tenha sido vítima de roubo ou golpe envolvendo o seu cartão de crédito, o cliente deve entrar em contato imediatamente com a central de atendimento do emissor do seu cartão, que possui procedimentos internos para avaliar cada caso individualmente.
O canal da Abecs no YouTube, com videoaulas sobre educação financeira e dicas de segurança e prevenção a fraudes, pode ser conferido em https://www.youtube.com/@abecsdicas/videos
Já a Polícia Civil disse que não há registro desse tipo de caso nas unidades especializadas.
Entenda
A comercialização
A venda costuma ocorrer em grupos fechados de aplicativos de mensagens ou em plataformas estrangeiras que dificultam a identificação dos responsáveis. Essas escolhas são feitas para reduzir o risco de rastreamento.
Nas negociações, o uso de cartões de crédito é mais comum. Isso ocorre porque, em geral, eles permitem movimentar valores maiores, enquanto o cartão de débito fica limitado ao saldo disponível na conta.
Acesso aos dados
Esses dados geralmente são obtidos por meio de vazamentos de informações, como já ocorreu no passado, ou por páginas falsas criadas para enganar usuários.
Essas páginas simulam promoções muito atrativas, com preços bem abaixo do mercado, induzindo a pessoa a informar seus dados sem perceber que se trata de uma fraude.
Valores
Em uma das divulgações, os valores foram:
Estratégias
Antes de vender ou utilizar os cartões clonados em maior escala, os golpistas realizam pequenas cobranças para confirmar se o cartão está ativo. Esses valores costumam ser baixos justamente para reduzir as chances de bloqueio imediato.
Perfil dos compradores
Em geral, os compradores são jovens, muitas vezes entre 18 e 25 anos, que enxergam esse tipo de atividade como uma forma rápida de obter renda, sem considerar as consequências legais dessa prática.
Dicas para se proteger
Monitore sempre as contas bancárias e os extratos do cartão de crédito em busca de atividades irregulares ou não reconhecidas. Os bancos e administradoras de cartão de crédito possuem controles eletrônicos sobre os lançamentos e, ao identificar qualquer anormalidade, devem informá-lo. Havendo a menor dúvida, não autorize a transação e solicite o bloqueio do cartão.
Mantenha senhas eletrônicas fortes e altere-as com frequência.
Considere utilizar serviços de monitoramento de crédito, que podem alertá-lo, por exemplo, sobre a abertura de novas contas em seu nome.
Pesquise antes de comprar e realize compras apenas em sites de confiança ou com boa reputação na internet. Após a transação, salve ou imprima o comprovante de compra.
Ao fazer uma compra presencial, acompanhe o cartão até o terminal de pagamento e não o perca de vista.
Verifique se o vendedor devolveu o cartão correto. Se possível, aproxime ou insira você mesmo o cartão no terminal.
Ao digitar a senha, fique atento ao entorno e certifique-se de que ninguém esteja tentando visualizá-la.
Decore a senha e nunca a guarde junto com o cartão, na carteira ou na agenda do celular.
Em caso de perda ou roubo do cartão, entre em contato imediatamente com a central de atendimento da administradora e solicite o bloqueio.
Fonte: especialistas entrevistados e Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs)
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