O recado da floresta para 2026: curar não é voltar, é abrir espaço
Em entrevista, terapeuta floral fala sobre recomeços, equilíbrio emocional e o papel das medicinas da natureza
Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
A floresta não fala alto. Não grita, não disputa atenção. Ela cresce. Resiste. Regenera. Talvez por isso, em 2026, o primeiro aprendizado não venha em forma de promessa, mas de ritmo: a natureza não aceita atalhos — e, ainda assim, sempre oferece caminhos.
Vivemos em cidades que exigem pressa, produtividade e atenção fragmentada. O corpo corre, o pensamento se dispersa, o emocional tenta acompanhar. A floresta surge como contraponto. Não como fuga, mas como território — simbólico e concreto — onde o tempo desacelera, a respiração encontra cadência e o sentir ganha chão.
Foi nesse entremeio, entre o concreto da cidade e o verde que insiste em existir, que conheci Lizandra Maria Ferreira de Borba, terapeuta floral e aromaterapeuta. Conheci também uma forma diferente de olhar para cura, imunidade e autocuidado — não como retorno ao que éramos, mas como abertura para o que ainda podemos ser.
Conheci Lizandra num momento de perda. Em meio à pandemia, após a morte da minha gatinha Nice, fui até Aldeia, em Camaragibe, adotar uma nova companheira felina. Voltei para casa com Arruda nos braços — e com a sensação de que aquele encontro não se limitava à adoção. Havia ali um saber que não vinha em discurso pronto, mas em presença, escuta e relação com a natureza.
“A floresta por si só já ajuda muito no nosso equilíbrio mental e emocional”, diz Lizandra. Não como frase de efeito, mas como constatação de quem observa o corpo reagir ao ambiente. O problema, segundo ela, é que a vida urbana impõe outro ritmo, outra lógica. É nesse intervalo — entre o que nos adoece e o que nos sustenta — que entram a aromaterapia e os florais. Não como solução mágica, mas como pontes.
Viver perto do verde, mesmo dentro da cidade
Cada planta carrega uma função. Uma resposta. Óleos essenciais como melaleuca e orégano atuam como aliados da imunidade, com ação bactericida reconhecida. Mas Lizandra chama atenção para algo que costuma passar despercebido: a floresta trabalha em camadas, assim como o ser humano. O efeito não é apenas físico. É também emocional, energético, simbólico.
Viver perto do verde — mesmo dentro da cidade — não é detalhe. Lizandra mora hoje na Várzea, no Recife, território onde a urbanização ainda convive com sombra, silêncio e resquícios de mata atlântica. Ali, atua há cinco anos com florais, numa prática que une técnica, escuta e ancestralidade.
O caminho até esse trabalho não foi linear. Quase cursou Psicologia, passou pela Biologia, mas se formou em Administração. Hoje, reconhece que nada foi desperdício. “Isso me ajuda muito a organizar meu trabalho como empreendedora”, afirma. Ainda assim, foi no percurso do autoconhecimento e no contato com as chamadas medicinas da floresta que diz ter resgatado conhecimentos antigos — não como retorno ao passado, mas como reconciliação com ele.
A floresta também ensina a sustentar intenções
Se o início de um ano costuma vir carregado de metas, listas e expectativas, a floresta também ensina a sustentar intenções sem se perder no excesso. Lizandra cria alquimias personalizadas, mas destaca um perfume inspirado em Oxóssi, orixá associado ao foco e à direção. A composição reúne aromas que remetem diretamente à mata: alecrim, capim-limão e tomilho. Óleos que ajudam a alinhar o mental e manter a atenção. Não para acelerar, mas para não se dispersar.
Quando o assunto são traumas, o ensinamento é outro: cura exige cuidado. Óleos como o pau-rosa — planta nativa do Pará, ainda pouco valorizada no Brasil — atuam diretamente no sistema nervoso central. É uma essência delicada, usada com atenção, mas de grande potência. Outros óleos surgem como apoio emocional: gerânio, rosas e lavanda, definida por Lizandra como “uma grande mãe da aromaterapia”. Para quem não se identifica com aromas doces, há alternativas como pinho-sibéria e manjerona, que auxiliam em processos de liberação emocional.
Ela faz questão de lembrar que nada age sozinho. “Tudo depende também de uma cadeia de outros suportes.” A floresta não substitui processos — ela acompanha.
Autoestima, nesse contexto, não é vaidade. É alegria e vitalidade. Óleos cítricos ajudam a reconectar emoções e devolver leveza. Gerânio e ylang-ylang atuam também no campo hormonal, trazendo confiança e segurança. Mas há algo que ultrapassa a química: o gesto. O uso consciente de produtos naturais funciona como lembrete cotidiano de que o corpo merece atenção, tempo e respeito.
O empurrão da natureza para um bom ano
Para o início de 2026, Lizandra tem recomendado óleos ligados ao fortalecimento da imunidade, como copaíba, orégano e a seiva do sangue-de-dragão. A observação vem da prática: muitas pessoas adoecendo com frequência, viroses recorrentes, cansaço persistente. Períodos de encerramento e recomeço exigem energia. Para isso, entram também lavanda e manjericão, que acolhem e equilibram, além de canela, pimenta-rosa e capim-limão, que aquecem e impulsionam o novo.
Sempre com um cuidado essencial: buscar orientação profissional. Cada corpo responde de um jeito. Cada história pede escuta.
Se a floresta tivesse um recado para quem não quer repetir os erros do passado, talvez fosse simples e difícil ao mesmo tempo: "crescer exige espaço", explica. Abrir espaço para o novo entrar implica reconhecer o que precisa mudar — processo que, às vezes, leva anos.
“A ajuda terapêutica está cada vez mais acessível para que possamos acessar mudanças de forma leve e amorosa”, diz Lizandra. Estar em harmonia com a natureza e zelar pelo meio ambiente não é apenas uma escolha ética. É pacto de sobrevivência. “Garantir saúde e boa vida para todos nós.”
Em 2026, talvez o maior aprendizado seja esse: não repetir erros não significa apagar o passado, mas aprender com ele — como a floresta faz, folha por folha, ciclo após ciclo.
E talvez seja por isso que aquele encontro, anos atrás, ainda faça sentido agora. Não fui até Lizandra apenas buscar outra gata depois de perder o amor felino da minha vida. Fui, sem saber, atravessar um trecho de mata em meio ao luto. Voltei com Arruda nos braços, ainda pequenina, é verdade, mas também com algo que só a floresta ensina: perdas não se substituem, se transformam. Algumas viram raiz. Outras, sombra. Outras, caminho.
A floresta não devolve o que foi embora. Ela ensina a seguir crescendo com o que ficou.
Sobre a entrevistada
Lizandra Maria Ferreira de Borba (41) é terapeuta floral e aromaterapeuta, atua há cinco anos com florais e mora na Várzea, no Recife-PE.
Instagram: @flordasmatas | @lizborba
Veja entrevista completa de Lizandra:O que a floresta ensina sobre cura emocional, imunidade e autocuidado
SUGERIMOS PARA VOCÊ:
Pernambuco que encanta, por Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
ACESSAR
Pernambuco que encanta,por Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
Aline Moura
Carregando na bagagem experiências de sobra no Diario de Pernambuco e na Folha de Pernambuco, jornais em que atuou em todas as áreas, exceto esportes, Aline Moura integra o time do Tribuna Online PE. E com o seu olhar jornalístico, através da coluna “Pernambuco que encanta”, busca valorizar o que há de melhor nos municípios pernambucanos.
PÁGINA DO AUTORPernambuco que encanta
A coluna Pernambuco que encanta, do Tribuna Online PE, revela histórias inspiradoras dos municípios pernambucanos e seus moradores. Com olhar sensível, informativo e analítico, valoriza as riquezas humanas, econômicas e culturais do estado, mostrando quem transforma comunidades com criatividade, coragem e afeto.