Somos assim
Uma viagem por invenções que mudaram o mundo - e pelas reações de pânico, boatos e interesses que tentaram barrá-las
Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa é desembargador ex-presidente do TJES e do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo. Bacharel em Direito pela UFES, é autor de obras jurídicas e idealizador de projetos inovadores como o “Botão do Pânico”, vencedor do Prêmio Innovare.
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Hoje à noite, quando ligar alguma lâmpada em sua casa, lembre-se de Thomas Edison, precursor dessa maravilha — e tenha pena dele: sofreu injustiças terríveis por conta de sua criação. Para começar, disseram que Deus havia criado o dia e a noite — e Edison, com sua invenção, estava a profanar a obra divina.
Apareceu quem o dissesse mancomunado com o governo em um projeto secreto que envolvia iluminar as ruas para melhor controlar o povo. Outros, finalmente, sustentavam que a energia elétrica vazaria dos fios e mataria as pessoas próximas.
Veja que quando o presidente Benjamin Harrison instalou luz elétrica na Casa Branca, em 1891, ele e a primeira-dama tinham tanto medo do sistema que se recusavam a tocar nos interruptores, dormindo frequentemente com as luzes acesas caso os funcionários não estivessem por perto para apagá-las.
Pense, agora, nas locomotivas a vapor. Nos idos de 1830, quando surgiram, inspiraram sérios relatórios médicos, segundo os quais o corpo humano não resistiria à velocidade delas — sofreria danos irreversíveis. Para complicar ainda mais a situação, “comprovou-se” que as mulheres teriam o útero deslocado e padeceriam de delírios. Tudo isso aconteceria em função de uma simples viagem de trem!
Não menos pavorosa foi a histeria surgida quando do advento do automóvel. Acredite: para poder circular em Londres, ele deveria ser operado por três pessoas: um motorista, um engenheiro e um ajudante à frente, agitando uma bandeira vermelha para alertar as pessoas. Calculou-se que o pânico criado atrasou o desenvolvimento da indústria inglesa em uns bons 30 anos.
Não menor foi a agitação em torno dos primeiros telefones. Estudos, os mais respeitáveis e profundos, indicavam que eles transmitiriam vírus, causando doenças. Além disso, maridos suecos proibiram a instalação do aparelho em suas casas alegando que o telefone era uma ferramenta imoral que permitiria que estranhos invadissem a privacidade das esposas e as seduzissem sem precisar entrar na residência.
E o guarda-chuva? Por volta de 1750, quando Jonas Hanway começou a usá-lo em Londres, deram-lhe uma surra. Os cocheiros viam o guarda-chuva como uma concorrência desleal, que arruinaria o modelo de negócios de transporte em dias chuvosos. Paralelamente, a sociedade britânica considerava o uso do objeto um sinal de “efeminação e fraqueza francesa”.
Diante de tantos absurdos, não ria! Você é assim — como eu e a humanidade. Somos, sim, reacionários incorrigíveis. Não acredita? Então vá à janela, com olhos de ver, e contemple o nosso mundo.
Nós já deveríamos gerar a energia de nossas casas. Conduzir veículos elétricos silenciosos e que não poluem. Curar praticamente todas as doenças que nos ameaçam. Trabalhar menos e viver com maior qualidade.
Porém, ora por conta da inveja, ora por obscurantismo, ora pela ganância, ora por comodismo, seja nas grandes ou nas pequenas coisas, atrasamos nossas vidas — afinal, na lição de Émile de Girardin, “todos falam de progresso, mas ninguém sai da rotina”.
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