E se parar?
Dependência tecnológica crescente expõe fragilidade global diante de possíveis colapsos digitais
Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa é desembargador ex-presidente do TJES e do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo. Bacharel em Direito pela UFES, é autor de obras jurídicas e idealizador de projetos inovadores como o “Botão do Pânico”, vencedor do Prêmio Innovare.
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Você já parou para pensar que sua vida depende, a cada dia mais, de sistemas informatizados? Da iluminação de sua casa à existência de água na torneira, da disponibilidade dos seus recursos em sua conta bancária a atendimentos médicos, tudo depende de computadores. E se eles pararem?
Há algum tempo li um fascinante livro sobre esta hipótese, cujo título é “Preparing for Digital Disruption”. Foi escrito por pesquisadores holandeses, e busca fornecer elementos aos responsáveis pela formulação de políticas públicas.
A primeira lição que sai de suas páginas é a de que o problema é mesmo sério. Vamos a um exemplo. Nos idos de 2017 realizou-se um ataque na Internet, que recebeu o nome de “WannaCry”. Em um único dia 230.000 computadores em 150 países foram afetados. No Reino Unido foi fortemente atingido o NHS (Sistema Nacional de Saúde), o nosso “SUS”. Nele, 19.000 consultas foram canceladas e cinco em cada 27 emergências não puderem ser atendidas. A rotina somente retornou após uma semana de muito sofrimento. A nível global os prejuízos foram calculados em uns US$ 4 bilhões.
A segunda lição aprendida é a de que não estamos preparados! Eis aí a verdade simples e dura. Não temos, seja na Holanda, seja em qualquer país do mundo, um nível adequado de preparação para a possibilidade de a Internet - assim como os milhões de sistemas que dela dependem - parar de funcionar.
Quando muito, após longas discussões, elaborarmos algumas relações de “sistemas críticos”, que deverão receber maior atenção em caso de emergência. São, no entanto, conceitualmente falhas - muitas vezes um sistema “não-crítico”, ao não receber atenção imediata, afetará um outro vital para o bom funcionamento da sociedade.
A terceira reflexão, porém, é a que mais nos instiga: considerada a realidade atual, simplesmente não temos como estar preparados!
Nossos sistemas informatizados dependem de empresas privadas, situadas dentro e fora do país. Na parte que delas não dependem, estão sujeitos a setores os mais distintos da administração pública e da própria estrutura privada. Quem tem autoridade sobre este emaranhado? Ninguém, eis a verdade!
É esta a lição maior: “globalizamos” o mundo real, mas nos esquecemos do “mundo das leis”. Em um mundo já sem fronteiras, continuamos presos a conceitos como “minha jurisdição”, “meu setor” etc. Temos permanecido isolados em nossas “caixinhas”.
Enquanto isso o crime, por exemplo, assim como os acidentes, já não conhece as amarras impostas pelas fronteiras. O “mundo das leis” esqueceu-se do “mundo real”, que está a vingar-se ignorando-o.
Tratemos, agora, da maior vítima desta omissão tão grotesca: você! Após sofrer com prejuízos por vezes sérios, você simplesmente não terá a quem reclamar! Não terá meios de ser indenizado - aliás, dificilmente terá conseguido proteger-se com um singelo contrato de seguro que seja!
Qual a solução? Aquela, absolutamente irreal, de “globalizarmos” o “mundo das leis”. Eu a digo irreal por esbarrar em nossos orgulho e vaidade.
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