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PEDRO VALLS FEU ROSA

O soluço dos urubus

Reflexão conecta o tema ao avanço do crime e à ineficiência do sistema de Justiça

Pedro Valls Feu Rosa | 06/07/2026, 12:44 h | Atualizado em 06/07/2026, 12:44
Pedro Valls Feu Rosa

Pedro Valls Feu Rosa

Pedro Valls Feu Rosa é desembargador ex-presidente do TJES e do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo. Bacharel em Direito pela UFES, é autor de obras jurídicas e idealizador de projetos inovadores como o “Botão do Pânico”, vencedor do Prêmio Innovare.


          Imagem ilustrativa da imagem O soluço dos urubus
Pedro Valls Feu Rosa é desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo. |  Foto: Arquivo/AT

Qual a influência do soluço dos urubus na formação das correntes aéreas? Há alguns dias dediquei-me a buscar uma resposta para essa relevante questão. Descobri que o soluço dos urubus não exerce absolutamente nenhuma influência sobre elas.

Aves, inclusive, sequer possuem um diafragma como os mamíferos, o que significa que elas não têm “soluços” no sentido estrito da palavra (embora possam ter espasmos musculares respiratórios). E mesmo que tivessem, a energia cinética gerada por um espasmo desses seria tão ínfima que se dissiparia no ar em questão de centímetros, sem qualquer impacto na atmosfera.

Descobri, porém, que os urubus planam em altitudes que podem chegar a mil metros, o que lhes proporciona um campo de visão considerável. Lá de cima eles devem ver que cerca de 19% da população brasileira convive de forma direta com a presença de facções criminosas em suas regiões.

Li que a maior delas seria o PCC, organização que contaria com 35.000 integrantes “batizados”, possuindo ramificações em praticamente todo o País e conexões internacionais avançadas. Comenta-se que movimentam bilhões de reais e comandam vasta parcela da economia do Brasil — já definido por alguns como um verdadeiro “narcoestado”.

Cruzando o céu, os urubus devem perceber que em praticamente todas as grandes cidades brasileiras há áreas nas quais o Estado não entra — sim, a ocupação do crime já é territorial. Devem evitá-las, por conta dos constantes tiroteios que nelas acontecem.

Calculou-se que um processo penal complexo, envolvendo essas facções criminosas, leva em média 2 anos e 10 meses para chegar a uma sentença — contra a qual caberão recursos vários, claro.

Daqui de baixo tudo isso tem ensejado congressos, conferências, simpósios, publicações de teses complexas, livros e assemelhados. Lá de cima, porém, a realidade vista pelos urubus é mais singela: o “mundo das leis” simplesmente não tem estado à altura dos desafios do momento histórico. Simples assim.

Considerado o nosso “campo de visão”, a solução viria de mais leis, penas maiores etc. Urubus, porém, lá do alto, considerariam mais adequado o conselho do Chefe de Polícia de Nova York, William Bratton, dado a autoridades brasileiras: “O Judiciário não funciona. Os policiais não trabalham em harmonia com os promotores, que não atuam em conjunto com os juízes. A Polícia Militar não trabalha em consonância com a Civil”.

Quanto ao tópico “o Judiciário não funciona”, seguramente surge do excesso de burocracia e formalismos — que não eliminamos com tantas digitalizações, virtualizações etc. E que não conseguiremos eliminar com “mais da mesma coisa” ou por meio do uso intenso e extenso da denominada “Inteligência Artificial” — que apenas tem conseguido dar sobrevida a uma “justiça por atacado”, absolutamente perigosa, que criamos.

As soluções, afinal, são simples — porém, difíceis. Demandam uma profunda mudança em estruturas tão cristalizadas como reacionárias. Assim, é melhor estudar os urubus e as correntes aéreas.

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Pedro Valls Feu Rosa é desembargador ex-presidente do TJES e do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo. Bacharel em Direito pela UFES, é autor de obras jurídicas e idealizador de projetos inovadores como o “Botão do Pânico”, vencedor do Prêmio Innovare.

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Pedro Valls Feu Rosa é desembargador ex-presidente do TJES e do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo. Bacharel em Direito pela UFES, é autor de obras jurídicas e idealizador de projetos inovadores como o “Botão do Pânico”, vencedor do Prêmio Innovare.

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