Mulheres que não querem ser mães: um direito à liberdade de escolha
Não querer ser mãe também é uma escolha legítima e deve ser respeitada
Escute essa reportagem

Durante séculos, a maternidade foi tratada como destino natural e inevitável da mulher. Crescemos ouvindo frases como “quando você for mãe, vai entender” ou “toda mulher nasceu para ser mãe”. Mas a realidade contemporânea mostra outra verdade: muitas mulheres, apesar de amarem crianças e respeitarem a maternidade, não têm o desejo de gerar ou criar filhos. E está tudo bem.
A sociedade, no entanto, ainda insiste em transformar essa escolha em um tabu. O julgamento vem de todos os lados: da família, dos amigos, do parceiro e até de colegas de trabalho. A mulher que não sonha em ser mãe é frequentemente taxada de egoísta, fria ou incompleta. Mas a recusa da maternidade não é ausência de amor, e sim o reconhecimento da grandeza que existe em assumir ou não a responsabilidade de trazer uma vida ao mundo.
Ser mãe não é como comprar um carro ou uma casa, uma decisão que pode ser revertida. É um compromisso para a vida inteira. É parir, cuidar, educar, se entregar e conviver com a ideia de que, por muitos anos, uma vida dependerá inteiramente dela. Não é romantismo, é realidade. E justamente por compreender a dimensão desse compromisso, algumas mulheres fazem a escolha consciente de não se tornarem mães.
De acordo com dados do IBGE (2022), a taxa de fecundidade no Brasil caiu para 1,6 filho por mulher, o menor índice já registrado na história do país e abaixo da taxa de reposição populacional. Esse dado não significa apenas que as mulheres estão adiando a maternidade, mas também que muitas delas não querem ser mães. Segundo estudos recentes, cresce no Brasil o número de lares sem filhos, seja por infertilidade, por projetos de vida diferentes ou por uma escolha deliberada de não ter descendência.
Essa escolha esbarra em outro conceito que precisa ser desconstruído: o mito do “instinto maternal”. Certa vez na faculdade, me recordo que fiz um trabalho sobre o Instinto do amor materno, foi quando conheci por meio de pesquisa, a historiadora francesa Élisabeth Badinter, que defende que o "amor materno é uma construção cultural, não uma obrigação biológica. Nem toda mulher nasce com o desejo de maternar, e isso não a torna menos mulher, menos humana ou menos capaz de amar”. E eu passei a enxergar a opção de não querer ser mãe, com outro olhar.
O peso das imposições sociais, no entanto, continua forte. A mulher que opta por não ter filhos muitas vezes precisa justificar sua decisão repetidas vezes, como se fosse obrigada a prestar contas ao mundo. Esse tipo de cobrança é reflexo de uma sociedade ainda marcada pelo machismo, que insiste em ver a mulher como procriadora, vinculando sua identidade e valor exclusivamente à maternidade.
Mas as mulheres de hoje estão ressignificando esse papel. São profissionais, criadoras, líderes, voluntárias, artistas, cientistas, empresárias, companheiras e tantas outras coisas que não cabem na caixinha estreita da obrigação materna. Elas amam crianças, se dedicam a sobrinhos, afilhados, alunos, causas sociais e, mesmo assim, mantêm a certeza de que não querem a maternidade em sua própria vida.
É hora de a sociedade compreender que não ser mãe também é um projeto de vida legítimo e respeitável. É a afirmação de que cada mulher deve ser livre para escolher seu caminho sem imposições. Reconhecer isso é um passo fundamental para quebrar padrões machistas e ampliar o entendimento sobre o que significa ser mulher.
Afinal, a plenitude feminina não se mede pelo número de filhos que ela gera, mas pela autenticidade com que vive a sua própria história.
MATÉRIAS RELACIONADAS:




Comentários