Encontro de gerações resgata produção feminina
Seleção apresenta nove músicas assinadas por nomes como Dennise Pontes, Tati Wuo, Elisa Lucinda e Tamy
A produção autoral de compositoras do Espírito Santo feita nos últimos 30 anos ganha novo e potente respiro com o recém-lançado “Clitória Musicalis”, álbum que reúne vozes também femininas da cena atual capixaba.
A seleção apresenta nove músicas assinadas por nomes como Dennise Pontes, Tati Wuo, Elisa Lucinda e Tamy e que, por barreiras de mercado ou gênero, tiveram pouco ou nenhum registro nas últimas décadas.
A direção e produção musical é da cantora Joana Bentes, que é responsável pelas releituras de “Samba Rápido” (Márcia Coradine) e “Central Park” (Kátia Rocha /Elisa Lucinda).
Eloá Puri, Karola Balves (Borabaez), Gavi, Ada Koffi, Roberta de Razão, Rany Baby e S.Y.M.A completam o time de artistas que dão novas interpretações às canções.
“O projeto nasce da necessidade de recontar e trazer à luz uma história cultural construída por mulheres. Esse encontro de gerações fortalece a permanência de um legado que integra nossa identidade cultural e que merece ser amplamente reconhecido e divulgado”, afirma Joana Bentes, ao AT2.
O repertório será executado na íntegra em show gratuito no próximo sábado, às 20h, no Teatro Virgínia Tamanini (Sesc Glória), no centro de Vitória.
Além das cantoras, estarão no palco a banda base responsável pela execução do disco: Maressa Machado (bateria), Thaysa Pizzolato (sintetizadores), Yasmin Miyeko (baixo), Paula Pividori (guitarra) e Dora Dalvi (violão).
AT2: Como foi a seleção das artistas e canções que participariam do projeto e seriam homenageadas? O que foi levado em consideração?
Joana Bentes: A seleção das artistas e canções partiu de uma pesquisa abrangendo os últimos 30 anos, período que coincide com a criação da Lei Rubem Braga, em 1991. A partir desse levantamento, foram reunidas todas as composições de autoria feminina.
Com esse banco de dados em mãos, realizei uma curadoria que buscou privilegiar a diversidade de gêneros musicais e, ao mesmo tempo, destacar vozes que marcaram minha própria experiência como ouvinte das rádios capixabas.
Ainda assim, metade do repertório do álbum foi escolhido a partir de uma primeira escuta, o que revela que essas músicas podem ser novidade – como foram para mim – especialmente para as gerações mais novas.
Confira a entrevista completa
O que busca mostrar com esse projeto?
O registro em álbum é uma ferramenta essencial para alcançar o objetivo maior: recuperar não apenas a presença, mas a voz dessas mulheres – suas vivências, subjetividades, afetos, memórias e parcerias. Valorizar a produção artística realizada por mulheres é, afinal, uma forma de (re)conhecer nossas raízes.
Ter um projeto cuja parte técnica e instrumental é majoritariamente formada por mulheres gerou algum impacto no resultado?
Sem dúvida. A presença feminina em todas as etapas – da produção à execução – criou um ambiente de escuta sensível e colaborativo, no qual a autoestima individual e coletiva pôde ser cultivada. Essa escolha não apenas garante a coerência com a proposta, mas também imprime uma sonoridade marcada pela diversidade de experiências e pelo espírito coletivo.
O impacto se manifesta tanto na estética musical quanto na dimensão simbólica: ao reunir mulheres em funções que historicamente foram invisibilizadas ou ocupadas por homens, o projeto reafirma que a técnica e a criação artística também são territórios de protagonismo feminino. Além disso, a convivência entre diferentes gerações de artistas possibilitou trocas ricas, em que novas referências puderam ser construídas.
O resultado é um álbum que carrega não só qualidade artística, mas também um gesto político e cultural de valorização e permanência das mulheres na música capixaba. O “Clitória Musicalis” pode se tornar, assim, um marco de representatividade, capaz de inspirar futuras iniciativas e abrir caminhos para que outras mulheres ocupem, com legitimidade e reconhecimento, todos os espaços da produção musical.
Como será o show do próximo dia 17?
O show contará com a presença da banda e das intérpretes que gravaram no álbum, além de marcar a apresentação formal do projeto ao público. Será uma noite de celebração coletiva, em que cada artista terá a oportunidade de interpretar as canções que registrou, criando um diálogo vivo entre o repertório, a história contada a partir dele, e a plateia – reforçando o caráter de encontro e partilha que sustenta o “Clitória Musicalis”.
A expectativa é que seja, além de um espetáculo musical, um momento de reconhecimento público da trajetória dessas compositoras e de inspiração para todos que tiverem a oportunidade de vivenciá-lo.
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