“Paranoia pode ser vilã ou combustível”, diz Camila Fremder
Camila Fremder transforma paranoias e inseguranças em riso, conversa e espetáculo ao vivo no Espaço Patrick Ribeiro
E se, minutos antes de subir ao palco, a maior paranoia não fosse esquecer o texto, mas descobrir que ninguém apareceu para te ver? Ou pior: que o convidado não chegou e você vai ter que encarar um teatro inteiro sozinha? É desse território entre o medo, o riso nervoso e a identificação coletiva que nasce o “É Noia Minha?”, projeto criado pela podcaster e escritora Camila Fremder que transformou inseguranças cotidianas em conversa, podcast, vídeo e, agora, espetáculo ao vivo.
Pela primeira vez, a apresentação chega a Vitória, hoje, às 19 horas, no Espaço Patrick Ribeiro.
Em entrevista exclusiva para a Rede Tribuna, a escritora contou que as noias mudaram com o mundo, ganharam novas roupas, novos gatilhos e novos contextos, mas continuam tendo algo em comum: a sensação de que talvez só a gente pense assim. Spoiler: não pensa.
“Paranoia pode ser vilã ou combustível. Quando a noia entra num lugar de ansiedade e insegurança, ela é vilã. Mas, como eu trabalho com isso, acaba sendo combustível criativo”, destacou.
Há quase sete anos, Camila Fremder escancara aquilo que todo mundo pensa, mas nem sempre admite: as “noias” que atravessam relações, trabalho, maternidade, dates, aeroportos, redes sociais e até a própria terapia.
Em um país onde se desabafa até com o motorista de táxi, ela encontrou na sinceridade brasileira o terreno perfeito para transformar paranoia em troca, humor em acolhimento e ansiedade em pauta criativa.
Do áudio ao palco, cada mudança veio acompanhada de medo, resistência e aquele clássico frio na barriga, mas também de crescimento.
Agora no Espírito Santo, Camila chega ansiosa para conhecer as noias capixabas, ouvir o público, rir junto e descobrir como cada cidade imprime suas próprias paranoias.
Quem é ela
Camila Fremder
Publicitária e escritora, Camila Fremder apresenta o podcast “É Noia Minha?”, que aborda temas do cotidiano e sugeridos pelo público de forma bem-humorada.
- O quê: Espetáculo “É Noia Minha?”.
- Quando: Domingo (25), às 19 horas.
- Onde: No Espaço Patrick Ribeiro, em Vitória.
- Convidados especiais: Fabão e Raquel Real.
- Ing.: A partir de R$ 80 (Cadeira Bronze/meia).
- Venda: Site blueticket.com.br.
- Classificação: 16 anos.
“As noias vão se adaptando”, diz podcaster
AT: Você roda o Brasil falando de nóias… mas qual foi a maior nóia que você já teve antes de subir num palco?
Camila Fremder: A maior nóia é pensar que, apesar de as pessoas terem comprado ingresso, ninguém vai aparecer. Ou que o convidado não vai chegar e eu vou ter que entrar sozinha no teatro. Essas são, sem dúvida, as maiores nóias antes do Nóia Ao Vivo.
AT: Você acha que o brasileiro é mais nóia ou só mais sincero sobre suas paranoias?
Camila Fremder: Acho que os dois. O brasileiro é muito noiado, mas também muito sincero. A gente é comunicativo, expansivo. Você entra num táxi e já está desabafando com o motorista. Quando eu era mais nova, fazia três amigas na fila do banheiro da festa. Existe essa facilidade de conversar, se aproximar e dividir angústias. Acho que é bem cultural.
AT: O É Nóia Minha nasceu como podcast e virou espetáculo. Em que momento você pensou: “ok, isso aqui saiu do controle”?
Camila Fremder: Em vários momentos. Quando saí do áudio para o vídeo, senti isso ainda mais do que quando fui para o palco. Fiquei muitos anos só no áudio e resisti bastante a essa mudança. Mas é sempre assim: na primeira vez dá medo, na segunda já fica mais confortável. No teatro foi igual. O primeiro Nóia Ao Vivo me deixou muito nervosa; depois que você entende como funciona, vai ficando mais calma.
AT: São mais de seis anos de podcast. As nóias mudaram ou só trocaram de roupa?
Camila Fremder: Na verdade, já são quase sete anos — em março o Nóia completa sete. As nóias acompanham o ritmo do mundo. Se você ouvir episódios antigos, quase não aparecem questões ligadas a redes sociais ou excesso de tela. Hoje isso é central. As nóias vão se adaptando às mudanças tecnológicas e ao jeito que a gente vive.
AT: Tem alguma nóia tão recorrente que você já prevê antes da pessoa terminar a frase?
Camila Fremder: Sim, tem as nóias clássicas que viraram quase memes. As de aeroporto, tipo “vai que eu estou levando algo ilegal sem saber”. Ou aquela clássica: “será que eu sou o cliente chato da minha analista?”. No Rapidinhas aparecem muitas nóias de date, muita coisa relacionada a dor de barriga, medo de passar mal, histórias de piriri… Essas sempre voltam.
AT: Já teve alguma conversa no podcast que te fez repensar uma nóia sua?
Camila Fremder: Muitas. Às vezes, quando eu percebo que outras pessoas têm a mesma nóia, ela diminui de tamanho. Isso acontece muito com temas ligados à maternidade. Quando você vê que é um medo comum, ele perde força. Mas também acontece o contrário: eu adquiro nóias dos outros, tanto de convidados quanto da audiência. Tem nóia que some, nóia que cresce, nóia que nasce.
AT: Existe um limite entre rir da nóia e respeitar a dor que ela carrega?
Camila Fremder: Com certeza. Depende muito da nóia. Algumas são leves, quase bobas. Teve uma no Rapidinhas em que a avó dizia que, se a pessoa não arrumasse a cama, o anjo da guarda achava que ela não tinha saído de casa. A gente riu muito. Mas existem nóias pesadas, como luto, por exemplo. Aí não cabe humor, cabe escuta.
AT: O que o público de Vitória pode esperar do espetáculo?
Camila Fremder: Muita risada. Eu vou com Fabão e Raquel Real, que são muito engraçados. A gente também leva uma urna para o público escrever suas nóias, então algumas acabam sendo lidas no palco. É um jeito de incluir as pessoas e criar essa troca ao vivo.
AT: Cada cidade reage diferente? As nóias mudam conforme o lugar?
Camila Fremder: Mudam muito. Existem nóias regionais. Em São Paulo aparece um tipo de nóia, já em cidades como Fortaleza e Recife surgem outras, ligadas à praia, ao mar, ao corpo, ao biquíni. Em cidades como Curitiba isso quase não aparece. Cada lugar traz suas próprias paranoias.
AT: Esta é sua primeira vez no Espírito Santo? Qual a expectativa?
Camila Fremder: Sim, é a primeira vez, e estou muito animada. Normalmente a gente acaba repetindo as mesmas cidades — Rio, Curitiba — então é muito especial ir para um lugar novo. Me surpreende e me deixa feliz saber que tenho público lá.
AT: Preparada para as nóias capixabas?
Camila Fremder: Preparada, não. Ansiosa, sim. Tudo relacionado ao Espírito Santo é novidade para mim. É minha primeira vez e tenho muita sorte de estrear lá já com o Nóia, conhecendo as nóias locais. Acho que vai ser bem divertido.
AT: Se tivesse que criar uma “nóia versão Vitória”, qual seria?
Camila Fremder: Talvez algo como: “O que será que eles acham dos paulistas?”. Será que nos acham caretas? Sérios demais? Essa expectativa da recepção, de saber se vão gostar, se vão rir… tudo vira nóia, né?
AT: A nóia pode ser vilã, mas também pode virar combustível criativo?
Camila Fremder: Pode, e no meu caso vira. Quando a nóia entra num lugar de ansiedade e insegurança, ela é vilã. Mas, como eu trabalho com isso, acaba sendo combustível criativo. Infelizmente — ou felizmente — quanto mais nóia, mais pauta.
AT: Que mensagem você deixaria para quem se identifica com o É Nóia Minha?
Camila Fremder: Agradecimento. Por muito tempo, ter uma cabeça noiada foi um lugar solitário. Toda nóia carrega aquela pergunta: “será que só eu penso assim?”. Quando isso vira uma comunidade, deixa de ser solitário. A gente vira um grande grupo noiado — e isso conforta muito.
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