Futuros médicos erraram questões sobre dengue e remédios
Futuros médicos erraram também questões sobre remédios na prova aplicada a estudantes do último ano do curso
Mais de 30% dos cursos de Medicina do País obtiveram desempenho insuficiente no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), aplicado a estudantes do último ano da graduação.
Os quase 13 mil alunos reprovados erraram questões consideradas fáceis em temas como dengue, dor de cabeça e prescrição de medicamentos.
De acordo com um relatório do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela aplicação do exame, e obtido por um programa de televisão, 66% dos estudantes erraram uma questão que abordava o que o médico deve fazer diante de um paciente com sintomas graves de dengue.
O 2º tesoureiro do Conselho Federal de Medicina (CFM), Carlos Magno, diz que o resultado é preocupante e expõe a população a uma série de riscos. “Estamos falando de questões simples, do dia a dia médico, como casos de dengue, uma doença endêmica no Brasil, que aparece todos os anos, especialmente no verão”.
Carlos acrescenta que esses erros refletem falhas na formação dos médicos. “Temos visto a abertura de muitas escolas de Medicina sem a estrutura adequada. Há instituições sem hospital próximo para prática, sem campo de treinamento e sem um corpo docente qualificado”.
O diretor científico da Associação Médica do Espírito Santo (Ames), Walter Fagundes, também defende a necessidade de rever a expansão dos cursos no País.
“É imprescindível que haja uma reflexão séria por parte das instituições de ensino, dos órgãos reguladores e do poder público quanto à abertura indiscriminada de cursos de Medicina, à fiscalização da qualidade do ensino oferecido e ao compromisso real com a excelência na formação médica”.
Para a corregedora do Conselho Regional de Medicina do Estado do Espírito Santo (CRM-ES), Karoline Calfa, o resultado das avaliações pode comprometer o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS).
“Já enfrentamos problemas como superlotação, profissionais sobrecarregados e falta de estrutura. Médicos malformados aumentam o risco de erros e geram insegurança no atendimento”.
Ela reforça que a área da medicina exige muita responsabilidade. “Nossa profissão lida com pessoas. Não existe meio certo, porque um erro pode custar uma vida”.
Entenda
Enamed
É uma prova criada pelo Ministério da Educação (MEC) para avaliar a qualidade das escolas de Medicina no Brasil.
Aplicado pela primeira vez em outubro de 2025, o exame classifica os cursos com notas de 1 a 5, sendo 1 e 2 consideradas insuficientes.
A prova, com questões gerais de várias áreas da medicina, não impede que o aluno se forme e nem que obtenha o registro profissional.
Resultados
Dos 351 cursos avaliados em todo o Brasil, 107 ficaram com notas 1 e 2.
Quase 13 mil alunos foram reprovados, acertando 60% da prova.
Questões consideradas fáceis, envolvendo temas como dor de cabeça, diagnóstico da dengue e medicamentos, tiveram mais de 60% de erro.
Medidas
Os cursos de Medicina que receberam conceito 1 ou 2 no Enamed vão passar por um processo de supervisão do Ministério da Educação.
Cursos com menos de 30% de alunos proficientes terão suspensão total de novas matrículas.
Cursos com 30% a 40% de alunos proficientes sofrerão redução de 50% das vagas.
Cursos com 40% a 50% de alunos proficientes terão redução de 25% das vagas.
Esses três grupos também ficam impedidos de ampliar vagas e terão a participação suspensa no Fies e em outros programas federais.
O que o CFM pretende
O Conselho Federal de Medicina (CFM) defende a criação de um exame nacional de proficiência, o Profimed, que seria obrigatório para os estudantes de Medicina ao final da graduação.
A proposta prevê uma avaliação teórica e prática em que só receberia o registro profissional (CRM) o estudante aprovado.
O Conselho Federal de Medicina também solicitou ao Ministério da Educação os microdados do Enamed para identificar alunos com desempenho insuficiente e estuda editar uma resolução que impeça a concessão do CRM a formandos de cursos com notas 1 ou 2.
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