Reag Trust: entenda porquê a gestora de investimentos foi liquidada
Gestora investigada por fraudes financeiras tem operação encerrada. Fundos seguem ativos e investidores não correm risco imediato
O Banco Central (BC) decretou ontem a liquidação da Reag Trust, gestora de investimentos investigada por participar de suposto esquema financeiro que inflava artificialmente ativos no Banco Master, com o uso de fundos de investimento.
Um deles apresentou um retorno de 10.502.205% em 2024, o maior rendimento do mundo no ano. Já outro multiplicou o seu patrimônio por cerca de 30 vezes com 20 dias de existência.
A instituição foi fundada pelo empresário João Carlos Mansur, alvo da 2ª fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga esquema de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master.
A liquidação da Reag pelo BC não traz riscos diretos aos investidores, segundo especialistas. A decisão da autoridade monetária tem a mesma finalidade que no caso do Banco Master: a instituição deixa de operar no mercado financeiro, mas, nesse caso, não há impacto sobre os fundos que ela administra ou tem sob gestão.
Portanto, os especialistas dizem que não há participação do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) nessa liquidação. A Reag tinha 625 fundos entre administrados e sob gestão, com R$ 352 bilhões em patrimônio, segundo informações da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).
“Os fundos oferecidos pela Reag no mercado (seja em sua plataforma ou em outras) seguem ativos, mas precisarão buscar outras instituições para fazer sua administração. Diferente de um banco, a Reag não capta dinheiro diretamente com os clientes. Isso é feito através dos fundos”, explicou ao jornal O Globo o economista Alexandre Chaia, professor de gestão de riscos financeiros e produtos bancários no Insper.
Chaia lembra que, com a liquidação da Reag, todas as operações estão paralisadas e aguardam avaliação do BC. Portanto, os investidores terão acesso aos recursos assim que uma nova administradora assumir. Mas Chaia enfatiza que tanto os ativos (ações, títulos públicos, participações em empresas) contidos nos fundos, assim como seu patrimônio, permanecem intactos.
O futuro dos fundos ficará a cargo do liquidante nomeado pelo Banco Central, e que já há regras definidas pela autarquia que regula o mercado de capitais para a destinação de gestão dos fundos, segundo Maria Isabel Bocater, ex-diretora da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Fundador da empresa liquidada está fora do País
Empresário influente no futebol que fundou a Reag, João Carlos Mansur é investigado pela Polícia Federal. Ele foi um dos alvos de busca e apreensão da nova fase da Operação Compliance Zero, está fora do País e não teve seu celular apreendido, por exemplo.
Ele é conselheiro no Palmeiras, gestor das finanças do estádio do Corinthians e articulador de investimentos em clubes esportivos.
Formado em ciências contábeis, Mansur possui MBA em gestão financeira e administração de empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Em seu perfil profissional no LinkedIn, Mansur afirma ter mais de 35 anos de experiência nas áreas de auditoria, controladoria, gestão financeira, desenvolvimento de negócio e análise de investimentos e gestão empresarial.
Mansur passou por grandes empresas antes de fundar, em 2012, a Reag Trust, que em poucos anos ficou conhecida como uma das maiores gestoras independentes de fundos do País.
Mansur deixou alguns cargos em setembro. Ele presidia o Conselho de Administração do Grupo Azevedo & Travassos, empresa de engenharia, infraestrutura e energia. Também integrou o Conselho de Administração da SteelCorp, grupo industrial com negócios nas áreas de aço, mineração e energia.
Entenda
Peça central de suposta fraude
A Reag é considerada peça central para entender a suposta fraude em que o Banco Master, de Daniel Vorcardo, está envolvido.
A gestora está no alvo da Operação Compliance Zero que investiga a relação do Master com fundos de investimento. Também está no radar da Operação Carbono Oculto, que mira as relações econômicas do Primeiro Comando da Capital (PCC), especialmente no setor de combustíveis.
O fundador da Reag e influente executivo em times de futebol, João Carlos Mansur, também é um dos alvos da segunda fase da Operação Compliance Zero.
Fundos de investimentos
A Reag aparece como a 8ª na lista de instituições financeiras e assets do País, com de investimentos de
R$ 325 bilhões. A relação da Reag com o Master se dava por meio dos fundos administrados por ela.
Segundo investigação do Ministério Público Federal, o banco concedia empréstimos para algumas empresas que não pagavam as parcelas, criando assim uma receita somente no papel.
O valor dessas operações de crédito era repassado em poucos minutos, em operações-relâmpago, quase integralmente a fundos administrados pela Reag, que simulavam uma rentabilidade irreal.
Os fundos eram compostos por papéis de baixo valor. A cada injeção de recursos, os ativos eram reavaliados. Ao fim do processo, registrava-se no papel uma escalada de “ganhos imaginários”. Em uma dessas operações, a valorização somou, ao fim, 10.502.205%, um patamar que não encontra respaldo na realidade.
Ao final, o dinheiro voltava para o próprio Master por meio da aquisição de Certificados de Depósito Bancário (CDBs). A Reag e o Banco Master não se manifestaram.
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