Novo programa pode limpar nome de 260 mil endividados no Estado
Governo estuda leilão de dívidas antigas com descontos altos, para permitir quitação e devolver acesso ao crédito a inadimplentes
O governo federal prepara um novo programa para a redução do endividamento, com foco em dívidas antigas. No Espírito Santo, cerca de 260 mil endividados podem ser beneficiados pela iniciativa.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, explicou que a ideia é fazer uma espécie de "leilão" para que o governo viabilize a recompra, com deságio (desconto), de dívidas antigas dos consumidores. O modelo está em fase de elaboração e deve ser apresentado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos próximos dias.
Quantos inadimplentes há no Estado
O Espírito Santo tem 1.413.589 de inadimplentes, conforme dado de agosto da Serasa, sendo 42,16% com bancos, cartões e financeiras. Em média, 36% das dívidas de cartão de crédito e 43% das dívidas de crédito pessoal têm mais de dois anos.
A partir desses números, o presidente do Conselho Regional de Economia do Estado (Corecon-ES), Ricardo Paixão, e o economista Sebastião Demuner estimam que cerca de 260 mil endividados podem ser beneficiados no Estado.
Como funciona o novo programa
"Esse programa vai olhar para a recompra de dívida e menos para a renegociação que as pessoas já fizeram. Foram 19 milhões de pessoas que conseguiram receber algum benefício de alívio de dívida nos nossos Desenrola", disse Durigan, ao jornal Extra.
A iniciativa pode apresentar um efeito positivo ao mitigar o chamado estoque de inadimplência antiga — dívidas que permanecem por anos nos balanços das instituições e nos cadastros dos consumidores, frequentemente com baixa expectativa de recuperação.
Para Ricardo Paixão, o modelo beneficia ambos os lados. "Para o credor, receber uma parcela de um crédito de difícil recuperação é preferível a manter indefinidamente um ativo de baixa qualidade. Para o consumidor, o desconto expressivo pode tornar uma dívida anteriormente impagável compatível com sua capacidade financeira", afirmou.
Impacto na economia e no consumo
O poder de compra da população tende a se elevar à medida que a economia se estabiliza. Atualmente, o varejo brasileiro enfrenta um desempenho fraco, com uma demanda retraída, apontou Sebastião Demuner.
"Ao quitar suas dívidas, o consumidor recupera a autonomia e a possibilidade de realizar novas aquisições", destacou o economista. A reintegração de indivíduos ao mercado de crédito amplia sua capacidade de consumo e de financiamento de bens.
Inadimplência cresce 4,16% em um ano
O número de inadimplentes do Espírito Santo cresceu 4,16% em agosto deste ano, em relação a agosto de 2025. O dado ficou acima da média da região Sudeste (2,95%) e abaixo da média nacional (5,02%), segundo dados do SPC Brasil.
Na passagem de julho para agosto, no entanto, o número de devedores do Estado caiu 1,01%. Na região Sudeste, na mesma base de comparação, caiu 2,71%.
Perfil da dívida no Estado
Em agosto, cada consumidor negativado do Espírito Santo devia, em média, R$ 5.064,85 na soma de todas as dívidas. Os dados mostram que 27,25% dos consumidores do Estado tinham dívidas de valor de até R$ 500, percentual que chega a 40,33% quando se fala de dívidas de até R$ 1.000.
O tempo médio de atraso dos devedores negativados do Espírito Santo é igual a 30,3 meses, sendo que 35,99% dos devedores possuem tempo de inadimplência entre 1 a 3 anos.
Como a regularização afeta o acesso ao crédito
O presidente do Corecon-ES destacou que a negativação atua como uma barreira significativa ao acesso ao mercado de crédito. "Ao regularizar sua situação, o consumidor retoma, gradualmente, as condições necessárias para utilizar cartões, financiamentos, crediários e outras modalidades", afirmou Ricardo Paixão.
No entanto, a retomada do crédito não ocorre de forma imediata, tampouco o score é restabelecido automaticamente ao patamar anterior. "O score funciona como uma classificação de risco utilizada pelas instituições financeiras para avaliar o perfil de cada cliente. Essas instituições baseiam suas decisões em critérios como histórico de pagamentos, comprometimento de renda e modelos internos de análise de risco", explicou.
Em escala nacional, a redução expressiva do número de inadimplentes contribui para o aperfeiçoamento do mercado de crédito, estimulando o consumo e a atividade econômica.
Saiba mais
Novo programa
A equipe econômica do governo federal prepara uma nova estratégia estudada pela equipe econômica do governo federal para reduzir o endividamento das famílias brasileiras, segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan.
Diferente do formato tradicional do antigo programa Desenrola Brasil, esse novo modelo busca simplificar o processo e focar em carteiras esquecidas do mercado de crédito.
Endividamento elevado
O ministro avalia que as origens do elevado endividamento das famílias remontam à crise econômica e às dificuldades do período da pandemia da covid-19.
Por isso, programas como o Desenrola e outros para reduzir o endividamento precisam ser feitos com recorrência.
Como deve funcionar o programa
- Foco em dívidas antigas: o alvo principal são os débitos acumulados há bastante tempo (inclusive durante o período da pandemia). São aquelas contas que os bancos e as empresas de serviços já perderam a esperança de reaver e que mantêm o nome do cidadão negativado.
- Recompra pelo governo com deságio: o governo federal planeja realizar um leilão direto com os credores. Vencerão as instituições que oferecerem os maiores descontos (deságio) para repassar essas dívidas.
- Sem necessidade de plataforma: o grande diferencial é que o consumidor não precisará acessar sistemas ou aplicativos para aceitar a proposta individualmente. O próprio governo viabilizará a liquidação desses débitos em lote, “limpando o nome” do cidadão de forma mais direta.
Apresentação nos próximos dias
O projeto está em fase final de desenho técnico pela Fazenda e deve ser apresentado nos próximos dias ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, disse o ministro da Fazenda.
Programas anteriores
O primeiro Desenrola alcançou dívidas bancárias e de contas de consumo (luz e gás, por exemplo) por meio de uma plataforma de renegociação, aberta após um leilão que definiu quais credores seriam contemplados, conforme o desconto oferecido.
No segundo Desenrola, o foco era exclusivo em dívidas de crédito bancário. O débito era renegociado com o próprio banco, a partir de faixas de desconto estabelecidas pelo governo, que se tornou o garantidor dessas operações.
As edições anteriores do Desenrola beneficiaram cerca de 19 milhões de consumidores com alívio de dívidas. O prazo de adesão ao Desenrola Famílias (Desenrola 2.0) encerrou-se em 31 de agosto.
Segundo Durigan, o governo também pretende continuar buscando formas de ampliar o acesso das famílias a crédito com custos menores.
Fonte: Agência O Globo, jornal Extra e Governo Federal
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