Advogado cai em golpe após bandidos clonarem voz de gerente de banco
Especialista em alertar clientes sobre crimes virtuais, ele jamais imaginou que também se tornaria vítima de um golpe sofisticado e convincente
Clonagem de voz, uso de um número aparentemente legítimo e a atuação de uma falsa gerente bancária foram suficientes para enganar até quem está acostumado a orientar outras pessoas sobre fraudes.
Do outro lado da linha, estava o advogado Sérgio Araújo Nielsen, de 43 anos. Especialista em alertar clientes sobre crimes virtuais, ele jamais imaginou que também se tornaria vítima de um golpe sofisticado e convincente.
A Tribuna – O que ocorreu?
Sérgio Araújo Nielsen – No dia 16 de abril, recebi uma ligação no celular e, no visor, apareceu o número institucional e o nome da minha gerente do Bradesco. A voz era exatamente igual, assim como a foto do WhatsApp.
Ela perguntou se eu estava fazendo algum tipo de empréstimo. Eu respondi que não e achei que era só mais um aviso de segurança e fiquei tranquilo. Mas ali era apenas o começo de um pesadelo.
Posteriormente, ela me ligou e disse que eu precisaria ir a um caixa eletrônico do banco para desabilitar uma chave de segurança, porque o banco faria uma nova chave de segurança e uma nova senha.
Qual foi a justificativa apresentada?
A pessoa dizia que estavam tentando fazer transações na minha conta. Fui ao caixa eletrônico da minha própria agência, em Vitória, mas não entrei para falar com a gerente, pois já tinha o costume de tratar tudo com ela por telefone.
Apenas fiz o que foi orientado e liguei para o mesmo número informando que havia concluído.
Qual foi a resposta?
Ela disse que eu teria de aguardar um pouco, porque a área de segurança do banco ainda não havia liberado a criação da nova chave de segurança e da nova senha. Ela me ligava todos os dias para me acalmar, mas o que queria era evitar que eu fosse até a agência.
Quando descobriu a farsa?
Ela conseguiu me enrolar durante aproximadamente uma semana. No dia 24 de abril, fui à agência e me disseram que a gerente estava de férias desde o dia 22. Naquele momento, eu já sabia que tinha me ferrado.
Sentei com o gerente que estava disponível para começar a contabilizar o prejuízo, mas era uma sexta-feira, e eu disse que não tinha condições emocionais de continuar naquele momento.
Combinei de voltar na segunda-feira para concluir o procedimento. Voltei ao banco, entreguei o boletim de ocorrência, assinei os documentos e formalizei a contestação.
Qual foi o prejuízo?
Posso dizer que foi um prejuízo grande, mas prefiro não revelar o valor. Eles fizeram transferências de duas contas: corrente e poupança. Só deixaram um pouco de dinheiro para eu me alimentar.
Confesso que é difícil acreditar. Eu trabalho com isso, vivo alertando sobre golpes e concedendo entrevistas sobre o assunto, mas tudo parecia muito verdadeiro.
A pessoa tinha todos os meus dados e a voz era idêntica à da minha gerente. O pior foi receber a notícia da minha agência de que eu não teria o valor restituído.
Tem um detalhe: depois do golpe, percebi que todas as conversas haviam sido apagadas do WhatsApp. A foto também desapareceu e, no lugar, aparecia a imagem com aviso de férias da minha gerente.
O que vai fazer agora?
Sou cliente do Bradesco há mais de 20 anos, e o banco alegou que todas as transações foram autênticas e autenticadas. O Bradesco possui um sistema de Inteligência Artificial para validar transações. Sempre que faço TEDs ou outras operações, recebo uma mensagem no WhatsApp perguntando se reconheço a transação.
No dia em que desabilitei a chave de segurança, recebi um SMS como se fosse do Bradesco informando que meus acessos estavam bloqueados por motivo de segurança.
Nesta semana, vou ingressar na Justiça pedindo o ressarcimento integral dos valores, indenização por danos morais e reparação pelos transtornos sofridos. Estou, inclusive, fazendo tratamento psicológico. Nunca imaginei passar por isso.
Alguns golpes mais comuns
Golpe da falsa venda
Como é: Criminosos criam páginas falsas que simulam e-commerce, enviam promoções inexistentes por e-mails, SMS e mensagens de WhatsApp e investem na criação de perfis falsos de lojas em redes sociais.
Como evitar: Sempre fique muito atento. O produto tem um preço médio no comércio de R$ 1.000, mas alguém está anunciando o mesmo item por R$ 300? Há fotos e vídeos de antes e depois de produtos com resultados mirabolantes? A loja oferece poucas opções de pagamento? O e-commerce é recém-criado em rede social? Pare, pense e desconfie. Pode ser golpe. Tome muito cuidado com links recebidos em e-mails e mensagens e dê preferência aos sites conhecidos para as compras.
Golpe da falsa central telefônica/falso funcionário
Como é: O fraudador entra em contato com a vítima se passando por funcionário do banco ou empresa com a qual o cliente tem um relacionamento ativo. O criminoso informa que há irregularidades na conta ou que os dados cadastrados estão incorretos. A partir daí, solicita os dados pessoais e financeiros da vítima e orienta que realize transferências alegando a necessidade de regularizar problemas na conta ou no cartão.
Como evitar: O cliente deve sempre verificar a origem das ligações e mensagens recebidas contendo solicitações de dados. Os bancos podem entrar em contato com os clientes para confirmar transações suspeitas, mas nunca solicitam dados pessoais, senhas, atualizações de sistemas, chaves de segurança, ou ainda que o cliente realize transferências ou pagamentos alegando estornos de transações. Ao receber uma ligação suspeita, desligue e, de outro telefone, entre em contato com os canais oficiais de seu banco.
Golpe do WhatsApp
Como é: O golpista descobre o número do celular e o nome da vítima de quem pretende clonar a conta de WhatsApp. Com essas informações, tenta cadastrar o WhatsApp da vítima em seu aparelho. Para concluir a operação, é preciso inserir o código de segurança que o aplicativo envia por SMS sempre que é instalado em um novo dispositivo. Os fraudadores enviam uma mensagem pelo WhatsApp fingindo ser do Serviço de Atendimento ao Cliente de site de vendas ou de empresa que a vítima tem cadastro. Eles solicitam o código de segurança, afirmando se tratar de uma atualização/protocolo, manutenção ou confirmação de cadastro.
Como evitar: Uma medida simples para evitar que o WhatsApp seja clonado é habilitar, no aplicativo, a opção “Verificação em duas etapas”. Dessa forma, é possível cadastrar uma senha que será solicitada periodicamente pelo app. Essa senha não deve ser enviada para outras pessoas ou digitadas em links recebidos.
Phishing (pescaria digital)
Como é: É uma fraude eletrônica que visa obter dados pessoais do usuário. A forma mais comum de um ataque é por mensagens e e-mails falsos, que induzem o usuário a clicar em links suspeitos. Também existem páginas falsas na internet que induzem a pessoa a revelar dados pessoais.
Como evitar: Nunca clique em links recebidos por mensagens. Mantenha seu sistema operacional e antivírus sempre atualizados. Na dúvida, fale com seu banco.
Devolução do empréstimo
Como é: O golpista, de posse dos dados do cliente, realiza a contratação de um empréstimo em alguma instituição, indicando a conta legítima do cliente para recebimento. Após a efetivação do empréstimo, os golpistas entram em contato com o cliente solicitando a devolução do dinheiro para que façam o cancelamento da operação. E indicam uma chave Pix ou um boleto para a devolução.
Como evitar: Se receber uma ligação ou mensagem desse tipo, entre em contato diretamente com o banco pelos canais oficiais (telefone, site ou aplicativo). Se o banco realmente precisar que você devolva um valor, o procedimento será feito por meio dos canais oficiais da instituição. Nunca transfira dinheiro para contas de desconhecidos.
Golpe da mão fantasma
Como é: criminoso entra em contato com a vítima se passando por um falso funcionário do banco. Usa várias abordagens para enganar a vítima: informa que a conta foi invadida, clonada, que há movimentações suspeitas, entre outras artimanhas. Ele diz que vai enviar um link para a instalação de um aplicativo que irá solucionar o problema. Se o cliente instalar o aplicativo, o bandido terá acesso aos dados que estão no celular.
Como evitar: Se receber esse tipo de contato, desconfie. Desligue e entre em contato com a instituição por meio dos canais oficiais e de um outro telefone para saber se algo aconteceu mesmo com sua conta.
Fonte: Febraban.
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