O cooperativismo e o Espírito Santo
Mais do que estandes e público, eventos expõem a estrutura diária de crédito, assistência e comercialização que sustenta a economia capixaba
Marcus e Matheus Magalhães
Marcus e Matheus Magalhães são Analistas do Mercado Agro
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Nas últimas semanas, vimos o cooperativismo capixaba ocupar espaço do seu jeito impossível de ignorar. Passamos pelas feiras da NaterCoop e da Cooabriel, acompanhamos corredores cheios, produtores negociando, famílias circulando, máquinas expostas e cidades inteiras movimentadas por alguns dias de intensa atividade.
A grandiosidade chama atenção. Mas o mecanismo por trás dela e que faz tudo se mover é o que mais impressiona.
Uma feira não nasce em 3 dias. Ela é o resultado de relações construídas ao longo do ano, de confiança acumulada, de assistência técnica, crédito, compra de insumos, comercialização, armazenagem e presença constante. Quando milhares de pessoas se reúnem num mesmo espaço, vemos apenas a parte mais visível de uma estrutura que trabalha todos os dias.
No Espírito Santo, o cooperativismo é uma força motriz do estado. Está no café, na pimenta, no leite, nos ovos, no comércio, no crédito e em tantos outros pontos da economia real. A Cooabriel carrega uma história profundamente ligada ao conilon e a São Gabriel da Palha. A NaterCoop conecta regiões, cadeias produtivas e perfis diferentes de produtores. Cooperativas de crédito estão presentes com agências espalhadas pelo interior, com crédito rural, no apoio aos pequenos negócios e também nos eventos culturais, esportivos e comunitários, tanto na Grande Vitória quanto no interior. E como essas, tantas outras fazem a diferença, todos os dias, na vida de milhares de pessoas.
Essa capilaridade ajuda a explicar sua força.
O Espírito Santo tem uma geografia econômica muito própria. Grande parte da riqueza nasce fora da capital, em propriedades pequenas e médias, espalhadas por municípios onde a relação pessoal ainda pesa na hora de decidir, investir e produzir. Nesse ambiente, conhecer o associado, compreender sua atividade e acompanhar seu ciclo faz diferença.
No agro, isso vale ainda mais. O produtor convive com clima, custo, preço, produtividade e mercado. Muitas decisões precisam ser tomadas antes de qualquer receita entrar. A cooperativa reduz parte dessa distância. Aproxima informação, crédito, tecnologia e comercialização. E, quando funciona bem, dá escala a quem sozinho teria muito menos poder de negociação.
Também há um efeito que ultrapassa a porteira. As feiras movimentam hotéis, restaurantes, postos, comércio e serviços. O apoio a eventos leva recursos e público para cidades que raramente entram no centro das manchetes. O dinheiro circula perto de onde foi produzido, e parte das decisões continua ligada às comunidades atendidas.
Por outro lado, precisamos evitar uma visão romântica. Cooperativas também enfrentam cobrança por resultado, concorrência, risco e necessidade de boa gestão. Crescer exige profissionalismo. A diferença está na origem da força: ela vem de uma base formada por milhares de associados que compartilham interesses, riscos e resultados.
Foi isso que vimos nas feiras. Muito além dos estandes bem montados, vimos uma rede econômica em movimento.
Quando as estruturas forem desmontadas e as luzes apagadas, o cooperativismo continuará onde sempre esteve: na lavoura, no caixa da pequena empresa, na decisão de investir e na rotina das cidades. Sua força no Espírito Santo nasceu dessa presença. E sua continuidade dependerá da capacidade de crescer sem perder a proximidade que o trouxe até aqui.
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