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TRIBUNA LIVRE

Voz no Estado e o eco das urnas

Judith Leão Castello foi a primeira mulher eleita deputada estadual no Espírito Santo

João Luiz Castello Lopes Ribeiro | | Atualizado em
Tribuna Livre

Leitores do Jornal A Tribuna


          Imagem ilustrativa da imagem Voz no Estado e o eco das urnas
João Luiz Castello Lopes Ribeiro é engenheiro civil e advogado, membro da Academia de Letras e Artes da Serra e do Instituto Histórico e Geográfico do Estado do Espírito Santo |  Foto: Divulgação

Quem a visse cruzar os salões do Estado no alvorecer do século XX, talvez não enxergasse nela a faísca que incendeia as estruturas. Nascida na pacata Serra, Judith Leão Castello parecia destinada ao roteiro discreto. Mas o Espírito Santo daquele tempo, com suas estradas de terra e coronelismos, estava prestes a descobrir que a erudição daquela jovem professora concursada carregava uma força política avassaladora.

Antes de colocar o sobrenome do homem que seria o seu grande companheiro de jornada, a senhorita Judith já desafiava o marasmo local. Em 1932 juntou-se à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, decidida a carimbar no passaporte da história o direito das mulheres ao voto.

O ano de 1934 trouxe a primeira grande prova de fogo. O Código Eleitoral abrira as portas das urnas para as mulheres, e Judith lançou-se candidata a deputada estadual. Corajosa, escolheu o caminho da “candidatura avulsa”. O voto feminino ainda era opcional e, tolhidas pelo conservadorismo da época, muitas mulheres preferiram ficar em casa.

E o destino logo cuidou de colocar ao seu lado o combustível que faltava para as lutas seguintes.

No dia 25 de agosto de 1938, casou-se com Talma Rodrigues Ribeiro. Longe de ser um marido tradicional que a queria trancada em casa, tornou-se o seu maior incentivador. A história, então, ganhou contornos de cinema.

Com o fim do Estado Novo e a redemocratização, as campanhas se seguiram, a imagem do casal quebrava qualquer preconceito: lá iam Judith e Talma, espremidos dentro de um Jeep, sacolejando pelas estradas de barro que rasgavam o interior do Estado. Onde a estrutura partidária tradicional não chegava, o Jeep de Talma e a determinação de Judith abriam caminhos.

Em 19 de janeiro de 1947, as urnas finalmente a consagraram como a primeira deputada estadual da história capixaba. Por quatro legislaturas consecutivas, a tribuna da Assembleia testemunhou um espetáculo raro. Judith não era uma oradora de gritos populistas; suas falas eram pérolas de erudição literária, decoradas com referências clássicas que calavam o plenário majoritariamente masculino.

Com a mesma autoridade que exigia escolas e melhores salários para os professores, ela usava a tribuna para dar voz àquelas mesmas comunidades isoladas que havia visitado de Jeep. Clamava por estradas, saneamento e energia elétrica, era preciso dar dignidade ao homem do campo.

Ao mesmo tempo que ocupava um espaço de poder inédito, Judith acalmava os espíritos conservadores garantindo que a mulher entrava na política não para subverter a ordem, mas para estender suas virtudes de mãe e cuidadora para a sociedade. Era o progresso vestindo as roupas da tradição. Judith despediu-se da política em 1963.

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