A empatia e a Inteligência Artificial
Avanço da IA no Judiciário reforça a importância do discernimento humano nas decisões
Leitores do Jornal A Tribuna
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A inteligência artificial está cada vez mais presente no Judiciário. Sistemas como o “Galileu” e outras ferramentas já auxiliam magistrados na organização processual, em modelos decisórios e na elaboração de minutas, contribuindo para a celeridade do processo. Contudo, com isso vem uma reflexão: até onde vai a empatia de uma inteligência artificial?
Por mais sofisticada que seja a tecnologia, o ato de julgar é essencialmente humano, pois envolve compreender histórias de vida e nuances que nenhum algoritmo é capaz de capturar.
A tecnologia não é neutra e seu uso demanda regulamentação. Um algoritmo pode ser perfeito na elaboração. Mas ele não pode substituir o olhar humano que enxerga, por trás dos autos, uma vida inteira com suas complexidades.
Quando alguém ingressa com uma ação, não leva apenas documentos. Leva sua história de vida inteira, inclusive seu ponto de vista sobre o mundo. Por trás de evidências, existem expectativas, algo impossível de ser analisado por qualquer ferramenta. O Direito não é um sistema de regras mecânicas, mas um exercício de interpretação, que exige do julgador a capacidade de compreender o contexto e os valores em jogo. Julgar não é a leitura crua da norma, mas interpretar pessoas.
Por outro lado, quem julga, defende e acusa também é humano. Tem suas próprias crenças, valores e experiências. O magistrado também interpreta os fatos através de sua própria perspectiva. Isso não é um defeito do sistema, é sua essência.
A doutrina de Miguel Reale diz que o Direito é um fenômeno cultural, e sua aplicação exige um juízo de adequação que transcende a mera subsunção lógica. Uma inteligência artificial pode produzir uma decisão tecnicamente perfeita, mas o Direito vive de discernimento humano e de capacidade de empatia.
A humanidade não significa rejeição à inteligência artificial. Ela deve ser bem-vinda como ferramenta de apoio para que mais tempo seja dedicado ao que realmente importa: a análise dos casos, a escuta das partes, a busca pela solução mais humanizada. Ao regulamentar o uso da IA no Judiciário, é enfatizado que tais ferramentas devem servir como auxiliares, jamais como substitutas da decisão judicial, que deve ser sempre fundamentada e pessoal.
Assim, o avanço da IA no Judiciário é uma realidade que nos desafia a repensar o papel de cada ator na justiça. A tecnologia pode ajudar a chegar mais rápido a uma decisão, mas só o ser humano pode garantir que a decisão, além de tecnicamente correta, seja justa, compreendendo o que cada parte carrega.
O Direito não pode se tornar frio porque a tecnologia avançou. Quanto mais o mundo caminha, mais precisamos olhar nos olhos de quem sofre e entender que, por trás de cada processo, existe uma vida esperando para ser ouvida. Que a inteligência artificial continue sendo aliada, mas que nunca se esqueça de que a justiça se faz com coração.
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