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OPINIÃO INTERNACIONAL

A diplomacia que dá errado e o dinheiro que dá certo

Vendas bilionárias de armas, investimentos ligados a Kushner e um acordo nuclear civil sem salvaguardas expõem a mistura de interesses e geopolítica

José Vicente de Sá Pimentel | 03/08/2026, 13:24 h | Atualizado em 03/08/2026, 13:24
Opinião Internacional

José Vicente de Sá Pimentel


          Imagem ilustrativa da imagem A diplomacia que dá errado e o dinheiro que dá certo
José Vicente de Sá Pimentel. |  Foto: Divulgação

Já foi dito que, em sua política externa, Trump tem o toque de Midas invertido: tudo que ele toca dá errado. Pode-se argumentar, porém, que, do ponto de vista estritamente financeiro, suas iniciativas produzem ouro: bilhões de dólares para sua família e amigos próximos. O caso da Arábia Saudita sintetiza as duas pontas.

Riad foi a primeira capital visitada por Trump, tanto no primeiro quanto no segundo mandato. Em maio de 2017, firmou com os sauditas um contrato de vendas de armas da ordem de 110 bilhões de dólares. Um espanto, a maior venda comercial de armamentos da história até aquele momento.

Ocorre que, em 2 de outubro de 2018, o jornalista Jamal Khashoggi foi morto e esquartejado dentro do consulado saudita em Istambul, onde fora tratar de documentos pessoais. Em sua coluna no Washington Post, Khashoggi era um crítico implacável do príncipe herdeiro e primeiro-ministro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman (MBS, para simplificar).

O episódio foi notícia no mundo inteiro. Relatórios de agências de inteligência internacionais, incluindo a CIA, concluíram que MBS, no mínimo, tinha aprovado a operação. Mas Trump blindou MBS com a frase, que ficou famosa – “talvez tenha sido ele, talvez não” – e, durante o resto do mandato, as relações EUA-Arábia Saudita floresceram.

Em 2020, as coisas mudaram. Tão logo eleito, Biden liberou o relatório da CIA que confirmava a participação de MBS no assassinato de Khashoggi e impôs sanções ao governo saudita, embora não diretamente a MBS.

Reeleito em novembro de 2024, Trump telefona para MBS, em janeiro, e anuncia aos seguidores de sua mídia social que a conversa rendera investimentos sauditas da ordem de 600 bilhões de dólares em quatro anos. Em maio, visita Riad e lá assina com MBS contrato de venda de 142 bilhões de dólares em armamentos, novo recorde histórico.

Paralelamente, o Fundo Soberano da Arábia Saudita, o PIF, depositava 2 bilhões de dólares no fundo Affinity Partners, do qual Jared Kushner, genro do Trump, é o único dono.

Senadores democratas abriram investigação sobre os negócios da Affinity, uma vez que Kushner não poderia ser um enviado especial ao Oriente Médio e ao mesmo tempo captar bilhões em investimentos sauditas. O relatório comprovou que a Affinity acumulou 6,16 bilhões de dólares em ativos, com 1,2 bilhão captado só em 2025. No entanto, nenhuma censura é aprovada. A estratégia de misturar diplomacia com negócios prossegue garantida pela maioria republicana no Congresso.

Em 22 de julho último – guarde esta data –, EUA e Arábia Saudita assinam o Acordo Nuclear Civil, que dá aos sauditas recursos tecnológicos para enriquecer urânio e reprocessar combustível usado. Os trumpistas comemoram, porque China e Rússia teriam sido descartadas da negociação. O resto do mundo, porém, fica apavorado: o acordo não proíbe o compartilhamento de tecnologia militar nuclear, não obriga a monarquia saudita a obedecer aos padrões internacionais de segurança, nem prevê a supervisão da AIEA, a Agência Internacional de Energia Atômica. Entre os apavorados, encontra-se Netanyahu, que consegue conversar com Trump na Casa Branca na tarde do mesmo dia.

Em 23 de julho, Trump dá um cavalo de pau e anuncia que o acordo só entrará em vigor depois que a Arábia Saudita aderir aos Acordos de Abraão, que vêm a ser compromissos diplomáticos pelos quais os países árabes normalizariam suas relações diplomáticas com Israel. Até hoje, somente Bahrein, EAU, Sudão e Marrocos assinaram os acordos, em troca de proteção contra o Irã.

Os demais países árabes subordinam a adesão à aceitação por Israel do Estado da Palestina. MBS, ainda mais ambicioso, quer ser o líder da negociação pela qual a Arábia Saudita, guardiã dos locais sagrados do Islã, garante a existência de um Estado palestino. Avalia que normalizar relações com Israel sem resolver a questão palestina enfraquece a sua posição no mundo muçulmano.

O “meia volta volver” em menos de 24 horas devolve Trump à incômoda situação de moleque de recados de Netanyahu. Bom cabrito, MBS engole o despontamento e admite participar de algumas operações de represália ao Irã. Aposta, talvez, que a sinuosidade dos caminhos de Trump voltará a aproximá-los. Até porque os negócios das famílias vão muito bem, obrigado.

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