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OPINIÃO INTERNACIONAL

Brasil com “s”

Reeleição de Lula impulsiona o Brasil como “trend” global, com elogios de líderes estrangeiros, reforço do soft power e desafios internos no radar

José Vicente de Sá Pimentel | | Atualizado em
Opinião Internacional

José Vicente de Sá Pimentel

Minha filha me disse outro dia que o Brasil está “trending”. Em vídeos diversos – shows em Copacabana, filas na Chapada e nos Lençóis – antigos e futuros turistas compartilham impressões sobre coisas brasileiras, e isso transparece no marketing de companhias aéreas e redes hoteleiras, que abrem espaços para divulgar outros cartões-postais além do Rio e do Carnaval.

Creio, e aceito apostas, que o resultado das eleições de domingo passado vai robustecer essa trend.

A reeleição de Lula foi saudada pelo mundo inteiro. Emmanuel Macron, Pedro Sánchez, Friedrich Merz, Mark Carney e Ursula von der Leyen mandaram mensagens que ultrapassavam o protocolo e acenavam para um aprofundamento das parcerias. Vladimir Putin caprichou nos cumprimentos, Xi Jinping previu “uma relação mais proeminente” e Narendra Modi aludiu a uma cooperação estratégica. Claudia Sheinbaum, Yamandú Orsi, José Antonio Kast e Antonio Costa, ex-primeiro-ministro português e hoje presidente do Conselho Europeu, telefonaram diretamente. Em 24 horas, quase todos os chefes de governo da Europa, quase todos da Ásia e quase todos da América tinham prestado as suas homenagens.

Faltaram dois. Javier Milei e Donald Trump.

A hostilidade de Milei já ultrapassou os limites. Logo ele, que deveria, no mínimo, ser grato pela ajuda brasileira no inverno de 2024. Com frio extremo e sem dólares para fechar a conta, a argentina Enarsa contratou às pressas 44 milhões de m³ de GNL da Petrobras. Ocorre que a carta de crédito do Banco de la Nación foi recusada por falta de garantias financeiras. Com isso, o navio ficou parado em Escobar e os argentinos por um triz não sofreram um apagão de gás. A sorte deles foi que nosso embaixador, Julio Bitelli, ouviu a chanceler Diana Mondino e levou o SOS hermano ao chanceler Mauro Vieira, que junto com o ministro Alexandre Silveira acertou com a Petrobras a aceitação de nova garantia, evitando, assim, o colapso. Isso cinco meses depois de Milei dizer que não negociaria com Lula.

Trump rejeita qualquer resultado eleitoral que contrarie seus desejos, fora ou dentro de casa. É errado dizer, porém, que os EUA não reconheceram Lula. Nas questões de reconhecimento, prevalece hoje a Doutrina Estrada: os Estados não precisam emitir declarações formais, a sequência das relações diplomáticas, comerciais e econômicas subentende o reconhecimento.

Ora, os EUA sabem medir a importância do fluxo econômico, financeiro e comercial com o Brasil. Atuam no mercado brasileiro mais de 3.900 empresas americanas, que remetem bilhões anualmente para a matriz. Em contrapartida, há 2.962 empresas brasileiras nos EUA, com estoque de US$ 22,1 bilhões (alta de 52,3% em dez anos, segundo a CNI). Nenhum governo, por mais ideológico, tumultua um fluxo dessa ordem sem custo político, e as perspectivas das eleições de meio de mandato, terça-feira próxima, já estão suficientemente desalentadoras para Trump. Seu toque de Midas virou ao avesso e os Democratas podem ganhar até em redutos dominados há décadas pelos Republicanos.

Embora o momento seja ruim para Trump, seu poder continua imenso. Conquistamos com o voto o direito de não ser quintal de ninguém, mas nada de hubris nesta hora.

Não obstante, dá gosto ver que o malogro do bolsonarismo coincide com o momento em que o Brasil vira “trend”. Governos europeus, ameaçados por tendências à direita da direita, esmiúçam o exemplo brasileiro, até porque a proeza de Lula veio com uma espécie de mapa da mina. Mídias sociais americanas estão inundadas por influenciadores tentando adaptar o modelo do engajamento progressista de Janones às “midterms” do dia 3. Na França, a esquerda de Mélenchon fala abertamente em “janonisme”. Furamos a bolha, estamos exportando know-how político e fortalecendo nosso soft power.

Contudo, o noticiário mantém-se alarmado com os desafios econômicos. Quem sou eu para criticar economistas? Inflação, equilíbrio fiscal e dívida pública são ameaças sérias e precisam ser enfrentadas. Pondero apenas que não pode estar tão mal uma economia que caminha para retomar o posto de oitava maior do mundo.

A euforia especulativa e a chamada FOMO (fear of missing out, em inglês) não são balizas confiáveis, o humor de mercado é imprevisível. O verdadeiro desafio do governo há de ser sua capacidade para aprimorar a destreza nas redes, engajar as mulheres e a juventude na necessária atualização institucional e transformar os ativos ambientais do país – Amazônia, Cerrado, biodiversidade – em roteiro e destino. Desde já, agradeço também a atenção aos idosos.

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