Diplomacia não é meta de exportação
Coluna é publicada no jornal A Tribuna
José Vicente de Sá Pimentel
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Em reportagem na Folha de S.Paulo, Patricia Campos Mello, jornalista de notória credibilidade, divulgou que Marcos Degaut, ex-secretário de Produtos de Defesa no governo Bolsonaro, vem apresentando em reuniões fechadas a empresários e diplomatas os contornos de uma reforma da diplomacia brasileira inspirada no chamado “Marco Rubio overhaul”. O assunto merece reflexão.
Nos termos apresentados, a atuação diplomática se concentraria em 35 países prioritários. O Itamaraty perderia o papel de articulador das relações internacionais do governo. Funções hoje exclusivas de diplomatas seriam atribuídas a profissionais de fora da carreira, especialistas em comércio exterior, encarregados de bater metas de exportação.
Nada contra o comércio, mas é ingênuo medir o sucesso da diplomacia por tonelada exportada. A promoção comercial é um subitem da projeção do país. Uma embaixada torna o Brasil presente. Abandonar postos onde o comércio bilateral não é volumoso é abandonar influência política.
Embaixadas reduzem falhas de mercado. A literatura de diplomacia comercial demonstra que a tarefa mais lucrativa é aumentar a confiança mútua e superar diferenças culturais. Estudos rigorosos, baseados em modelo gravitacional, mostram que embaixadas reduzem barreiras intangíveis, porém reais, como falta de confiança, diferenças culturais e fragilidade jurídica. Escritórios de promoção comercial são incapazes de gerar comércio por si sós.
Trocar atuação diplomática por meta de exportação pode parecer eficiente, mas não funciona. A presença política é que gera confiança. Essa é a lição dos grandes mestres, do clássico Harold Nicolson ao realista Henry Kissinger. Diplomacia é representação política permanente, não balcão de exportação.
Outra função essencial do diplomata é proteger cidadãos, empresas e interesses. Para tanto, negocia acordos, atua em organismos internacionais e constrói coalizões. Ao limitar nossa presença a 35 países, abriríamos mão de votar e de sermos votados em foros cujas decisões afetam diretamente o Brasil, como FMI, BID, OMS, OIT, FAO, UNESCO e tantos outros. Diminuir a presença ou sair desses órgãos não rende economia, cede narrativa.
Representação diplomática não é gasto suntuário. Os economistas mais citados na área de comércio exterior, como Peter van Bergeijk e Andrew Rose, sustentam que as repartições diplomáticas produzem resultados quantificáveis de aumento nas exportações, ao passo que fechar embaixada gera fuga de comércio, finanças e recursos humanos.
Transformar embaixador em vendedor com meta é confundir meio com fim. A função comercial é consequência de boa presença política, não o contrário. Medir diplomacia por exportação é como medir um hospital por curativos vendidos.
O modelo de Marco Rubio não nos convém. Extinguiu departamentos de promoção de direitos humanos, defesa da democracia e proteção do clima; cortou 15% da máquina, com eliminação de 132 escritórios e cerca de 3 mil saídas entre demissões e aposentadorias voluntárias; bateu o recorde de indicações políticas – só 9% dos atuais embaixadores americanos são de carreira, e as promoções passaram a incluir critério de “fidelidade à agenda”. Diante dessa obra, fica a pergunta: valeu a pena?
A crítica frequente ao “overhaul” é que a economia gerada foi muito inferior à queda de prestígio. Os EUA perderam soft power. O Pew Research Center, padrão-ouro da opinião global, constatou em pesquisa com mais de 42 mil adultos em 36 países, entre fevereiro e maio deste ano, que a China passou a ser vista mais favoravelmente que os EUA na maioria dos países pesquisados. Os EUA só ficaram à frente em Israel, Índia, Japão, Coreia do Sul, Filipinas e Polônia. Alguém alheio ao noticiário desde janeiro de 2025, quando Trump foi empossado no segundo mandato, ficaria chocado ao constatar que canadenses e mexicanos, vizinhos diretos, hoje veem a China mais positivamente que os EUA.
É alto o custo de transformar diplomacia em negócio. Quando a política sai de campo, é substituída pela suspeita de atividade predatória. No caso americano, o próprio Trump eliminou as dúvidas e confirmou merecer desconfiança ao celebrar na ONU, em 22 de setembro, a operação militar que capturou Maduro para se apoderar do petróleo venezuelano.
O Brasil não tem poder militar para sustentar um tal sincericídio. Nossa lógica sempre privilegiou a conquista do respeito e da credibilidade. As ferramentas para isso são capilaridade, credibilidade jurídica e gente bem treinada. Não se mexe em time que está ganhando.
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