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INOVAÇÃO E MERCADO

Terras raras: o Brasil diante da nova revolução industrial

O Brasil surge como a alternativa mais óbvia neste tabuleiro de xadrez geopolítico, cobiçado por americanos e chineses

Evandro Milet | | Atualizado em
Inovação e Mercado

Evandro Milet

No século XVIII, o Brasil colônia viveu o ápice de seu primeiro grande ciclo mineral, chegando a responder por cerca de 50% de toda a produção mundial de ouro. Por conta de um tratado comercial entre Inglaterra e Portugal, trocando têxteis por vinhos, desfavorável para Portugal, essa riqueza fluiu diretamente para a Inglaterra, servindo de lastro financeiro para financiar a Primeira Revolução Industrial britânica. Esse movimento gerou a máxima entre historiadores econômicos: “O ouro deixou buracos no Brasil, palácios em Portugal e fábricas na Inglaterra.”

Esse cenário contrasta bastante com a experiência dos Estados Unidos no século XIX. Durante a célebre Corrida do Ouro na Califórnia, iniciada em 1848, retratada nos filmes de bang bang, os americanos souberam converter a riqueza mineral em desenvolvimento interno. O ouro não foi enviado para o exterior para pagar dívidas de terceiros. Ele funcionou para financiar a expansão ferroviária, erguer polos comerciais como São Francisco e estruturar uma infraestrutura de transporte e comunicação que industrializou o país. Por outro lado, dizimou 80% dos povos originários, poluiu rios com mercúrio e acabou com florestas de pinheiros e sequoias.

Três séculos após o ciclo mineiro do ouro, a história oferece ao Brasil uma nova chance de escolher qual desses caminhos trilhar. Estamos vivendo o início de uma revolução tecnológica e energética global, e o país se encontra em posição privilegiada: detemos aproximadamente 23% das reservas mundiais de terras raras, incluindo o cobiçado neodímio, elemento abundante em depósitos de Goiás e Minas Gerais. Para se ter uma ideia do seu poder estratégico, um único bloco de ímã de neodímio do tamanho de uma caixa de sapato é capaz de gerar uma força magnética brutal, o suficiente para erguer um Toyota Corolla inteiro do chão. É essa força descomunal que move os motores dos carros elétricos modernos, os geradores das turbinas eólicas e os sistemas mais avançados de mísseis, radares e satélites de defesa militar. Quem domina esses minerais e, principalmente, a tecnologia do seu processamento, tem lugar reservado no futuro.

Atualmente, o mercado global enfrenta o monopólio da China, que controla o refino e o processamento de quase toda a cadeia de terras raras. O Brasil surge como a alternativa mais óbvia neste tabuleiro de xadrez geopolítico, cobiçado por americanos e chineses. Para transformar esse potencial em soberania econômica, o Brasil precisa superar um gargalo: o país possui apenas 25% a 40% do seu território mapeado geologicamente. Mapear essas jazidas é o primeiro passo.

O segundo passo é rejeitar o modelo puramente exportador de commodities. O Brasil não pode se limitar a extrair o minério bruto de neodímio e outros elementos e exportá-los a preços baixos para ser refinado no exterior. A grande oportunidade reside na possibilidade de processar esses elementos em solo nacional. Desenvolver a tecnologia de separação química e fabricar internamente os produtos de alto valor agregado como os superímãs é o que ditará nossa emancipação. A Vale é o novo player em terras raras, embora concentrando atenção em extração e ainda não em processamento. Lembrando que essa é apenas uma das etapas da cadeia que chega na Inteligência Artificial. A escolha atual é clara: repetir o erro do ouro colonial contribuindo com a revolução industrial dos outros ou usar as terras raras para construir a nossa própria prosperidade, mas sem destruir o meio ambiente.

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