Como a China consegue isso?
Entenda os fatores que aceleram obras na China — terra estatal, Justiça subordinada e planos quinquenais — e contraste com educação e juros no Brasil
Evandro Milet
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Todos nós ficamos impactados e com inveja com a velocidade que grandes obras são feitas na China. Todos os dias aparecem novas linhas de trens-bala, pontes fantásticas, prédios que sobem em alta velocidade. São também 150 marcas de automóveis, 650 fabricantes de placas solares, mais de 200 fabricantes de robôs humanoides, tocados por empresas privadas em um capitalismo praticamente predatório. Realmente são números impressionantes. Como eles conseguem?
Para começar, toda a terra e subsolo pertencem ao Estado, portanto obras independem de desapropriação de propriedade privada, o que facilita tudo, e mesmo que houvesse algum caso de reclamação, a litigância é limitada por que a justiça na China é um sistema unificado e hierárquico, fortemente subordinado ao Partido Comunista Chinês (PCCh). Diferentemente de democracias ocidentais, o Judiciário não é um poder independente, mas um instrumento de Estado.
Embora a Constituição Chinesa preveja garantias de direitos fundamentais, críticos apontam que o rigor do Estado e as diretrizes do partido limitam a independência dos advogados de defesa, que também devem jurar lealdade ao PCCh.
Também não há liberdade de imprensa para repercutir críticas e fazer investigações independentes, não há facilidades para manifestações de protesto nas ruas, raramente autorizadas e fortemente vigiadas por câmeras de identificação facial ou em redes sociais, monitoradas e limitadas nos acessos a sites não autorizados. No Índice Mundial de Liberdade de Imprensa da Repórteres Sem Fronteiras, a China ocupa a 178ª posição entre 180 países, ficando à frente apenas da Coreia do Norte e da Eritreia.
Outra facilidade é a prática de elaboração de planos quinquenais de Estado e não de Governo, afinal, não há alternância de poder. O Plano Quinquenal da China é o principal mapa de metas econômicas, sociais e políticas do país. Ele é feito pelo governo a cada cinco anos desde 1953. O documento serve para direcionar os investimentos do Estado e das empresas. Atualmente, a China está iniciando o seu 15º Plano Quinquenal (2026–2030).
Há sempre dúvidas no ocidente se uma ditadura capitalista, que eles chamam ironicamente de socialismo com características chinesas, irá se perpetuar, considerando que, embora tenham tirado 800 milhões da pobreza, a desigualdade piorou com inúmeros bilionários. Alega-se que a visão oriental é diferente da ocidental, mas Japão, Coreia e Taiwan estão no Oriente e praticam democracias parlamentaristas ou semipresidencialistas próximas das europeias.
Uma imensa vantagem que a China tem em relação ao Brasil é a formação de engenheiros, 1,9 milhão por ano versus 95.000 no Brasil, vindos de uma sólida formação nas áreas STEM(Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) desde o ensino fundamental.
Em comparação com uma ditadura capitalista como a China, prefiro acreditar na evolução democrática do Brasil, principalmente quando houver uma conscientização da importância da educação, principalmente no ensino fundamental, e quando houver o empenho do Governo Federal para fazer o que tem que ser feito para baixar a taxa de juros para padrões civilizados e que permita um crescimento sustentável em padrões chineses.
Enquanto isso, se não podemos fazer obras na velocidade da China, poderíamos, ao menos, evitar a fuga da racionalidade, como a resistência à exploração de petróleo na margem equatorial, considerando a competência e experiência da Petrobras, e como a exigência recente do Iphan para pesquisas arqueológicas em uma faixa de 500 metros de cada lado do traçado da ferrovia EF-118 ligando o Espírito Santo ao Rio de Janeiro. Afinal, se o Brasil tivesse os 5.000 anos de civilização chinesa teria muita coisa para encontrar. Embora os povos originários estejam por aqui há mais de 500 anos, não havia a sofisticação de interesse arqueológico da China. Dá para se pensar em como Roma construiria um metrô, se fosse submetida à legislação ambiental brasileira.
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