Compulsão por jogos: doença atinge desde adolescentes a idosos
Publicidade agressiva e facilidade de acesso por meio do celular transformaram as apostas em problema de saúde pública
De um lado, adolescentes e adultos seduzidos por recompensas rápidas e influenciadores. Do outro, idosos que encontram no celular companhia para a solidão. O vício em jogos digitais e apostas on-line é doença reconhecida e tratada como problema de saúde pública.
A médica psiquiatra Letícia Mameri-Trés ressaltou que se trata de vício quando a pessoa perde o controle sobre o tempo e o dinheiro investidos, e o hábito passa a gerar impactos negativos na vida social, profissional e emocional. “O hábito deixa de ser entretenimento e passa a ser considerado doença, reconhecida pela Classificação Internacional de Doenças (CID)”.
Ela revelou que adolescentes e jovens adultos são os que mais aparecem nos atendimentos, pela maior exposição às plataformas digitais e à publicidade. “O perfil predominante é de pessoas com histórico de impulsividade, ansiedade ou dificuldades financeiras”.
A psicóloga clínica Cristiane Spinassé Rizzo afirmou que a expansão das apostas on-line no Brasil tem gerado preocupação entre especialistas em saúde mental.
“O envolvimento excessivo com esses jogos está ligado a estratégias de publicidade agressivas que atingem, principalmente, pessoas vulneráveis, como adolescentes e idosos. A propaganda das apostas é planejada para despertar emoções, criar a ilusão de ganho fácil e associar o jogo a sucesso e felicidade, reduzindo a percepção dos riscos”.
Ela ressaltou que o crescimento desse tipo de vício foi impulsionado também pela popularização dos smartphones, que facilitam o acesso contínuo às apostas, e pela pandemia de covid-19, que intensificou o isolamento, a ansiedade e o tempo diante das telas.
“Não se trata de falta de força de vontade, mas de um adoecimento psíquico com impactos sociais amplos”.
Médica atuante em psiquiatria, Mariana Benevides enfatizou que o tratamento se inicia com o acolhimento ao paciente. “É um tratamento prolongado, não é feito em uma consulta, com uma pílula mágica. Por isso, é importante envolver familiares nesse processo”.
Ela destacou, ainda, que há hoje aplicativos de celular que bloqueiam sites de apostas, por exemplo. “Há opções, desde gratuitas até pagas, que fazem esse bloqueio. Eu costumo indicar o Gamban, já que, mesmo se o paciente desistir do tratamento, não é possível desinstalar”.
Segundo a médica, dependendo do caso e da avaliação de comorbidade – como ansiedade ou depressão –, é possível que o tratamento seja feito com antidepressivo ou ansiolítico. “Temos bons resultados, principalmente, com adesão a grupos como Jogadores Anônimos”.
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