“Com o tempo, o amor é vontade de permanecer junto”, diz atriz Aline Deluna
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Aos 31 anos de idade, a atriz, bailarina e cantora Aline Deluna já teve mais urgência em entender a diferença entre amor e paixão. Porém, o tempo passou e novas experiências surgiram.
“Fui descobrindo que amor é mais uma decisão, é uma vontade de permanecer junto”, destaca a artista, que acabou de estrear uma peça que tem tudo a ver com o assunto.
Trata-se de ”A Reivenção do Amor”. O espetáculo romântico acompanha a história de um escritor teatral e sua namorada inconstante.
Além disso, a produção é inspirada em clássicos de Hollywood, como “... E o Vento Levou” e “Casablanca”. Na peça-filme, disponível de graça no YouTube até domingo, Aline divide o palco com o ator Marcelo Nogueira.
Essa nova produção ganha vida após Aline ter emocionado a todos interpretando a neta de escrava e pioneira na psicanálise Virgínia Bicudo, no especial “Falas Negras”. Exibido pela TV Globo no ano passado, o programa foi dirigido por Lázaro Ramos.
Contudo, a postura antirracista de Aline não se resume ao especial. Segundo a carioca, o seu fazer artístico está lado a lado com o seu ativismo.
“Não vejo como algo descolado”, afirma a atriz, que também é psicóloga, psicanalista e atende clientes há 10 anos.
Para ela, unir as duas funções é transformador: “São muitas pessoas que atravessam a minha vida por causa do teatro, da psicologia e da psicanálise. Esse fluxo de pessoas/personas é muito bom”.
“E o teatro é maravilhoso, porque quebra padrões, preconceitos, vem se desorganizando e montando palco para surgir qualquer coisa”, celebra ela, que está escrevendo um musical. “Sou apaixonada por musicais! Sou atriz, canto e sou bailarina. E usar tudo isso em cena é sensacional! O ponto de partida será a saúde mental”, fala sobre o projeto.
“Não acho difícil rir. Difícil é não chorar”
AT2 Está em “A Reinvenção do Amor”. Qual mensagem essa peça leva ao espectador?
Aline Deluna O que mais me encantou foi a proposta de contar uma história de amor nisso tudo que a gente está vivendo. O real está real demais. A peça tem a capacidade de nos transportar para um mundo mais lúdico, mais leve. Sem dúvida, a gente vai pensar no passado, nas nossas histórias de amor.
É saudável esse movimento de voltar ao passado?
Voltar não quer dizer que a gente não toque pra frente. Às vezes, olhar para trás não é no sentido de querer voltar. Mas de perceber como a gente via o mundo.
De quantas histórias de amor se faz uma história de amor?
Acho que não tem limite. História de amor se faz e refaz a cada instante. A gente acha que está vivendo um amor no estilo “Casablanca”, mas pode ser outro filme.
Qual a diferença entre amor e paixão efêmera?
Não sei dizer a diferença. Acho difícil qualificar sentimentos. A gente tende a acreditar que amor é aquilo que dura. E que paixão se gasta. Tem paixões que podem ser reacendidas. Há amores breves. Há pessoas que amam com uma forma de amar romântica. Não sei se dá para dividir. Um complementa o outro.
É artista, psicóloga e psicanalista. O que veio primeiro?
Minha atuação artística é anterior. Faço teatro desde os 7 anos. A psicologia é uma paixão que descobri. Escolhi a academia como um estudo para entender mais o ser humano. Hoje vivo um harmonioso casamento com psicologia, psicanálise e teatro. Enquanto um tenta organizar, o outro bagunça.
Vem de família de artistas?
A arte entrou na minha vida como passatempo na época de escola. Minha mãe achava importante que eu e minha irmã tivéssemos estudos eletivos. Passamos grande tempo em centros culturais. Ali encontrei o teatro e nunca mais larguei. Lembro de uma contadora de histórias, de olhar aquela pessoa diante de várias pessoas, e todo mundo envolvido e se emocionando. E ela virava um universo. Lembro de ter essa sensação de querer fazer o que ela fazia.
E aquela Aline conseguiu?
Acho que consegui. Porque vivo emocionada. Isso que eu queria: ser uma pessoa diante de uma plateia, fazendo as pessoas se emocionar. Isso eu consigo. Isso me emociona. É um casamento perfeito.
Está sempre sorrindo. Tem sido difícil sorrir atualmente?
Não acho difícil rir. Difícil é não chorar. É difícil não se entristecer. Sofrer junto, na maior parte das vezes, não ajuda. Acho que sempre tem pequenas alegrias no meio disso tudo.
Quais são as suas?
Tenho muitas. Gosto muito de rir. O humor é uma coisa minha, da minha família. Mais do que nunca, momentos com amigos e família, mesmo que virtuais. Tenho um companheiro que é um grande momento de alegria. Para mim, a alegria, assim como o amor, é idealizada. Não é algo que chega, conquista e estabiliza. São momentos. Essas pequenas alegrias, nesse contexto, são nossas grandes alegrias. Tento não perder nenhuma.
Já foi vítima do chamado racismo estrutural?
Sim. Por exemplo, quando pessoas me perguntaram qual era a minha função na clínica onde trabalho. Pelo meu cabelo, deduziram que eu era da limpeza ou de outro setor. Isso aconteceu faz muito tempo. O racismo estrutural é quando alguém deduz sua função social pela sua aparência.
Quando descobriu que a beleza não pode ser imposta?
Por muito tempo, eu me achava uma criança não feia, mas totalmente errada. Eu precisava corrigir os meus traços para ficar de acordo. E levei muito tempo desconstruindo essa ideia. Mudou muito quando comecei a corrigir minhas referências. Por eu ser uma criança de pai negro e de mãe de descendência libanesa, eu me via no meio do caminho. As minhas referências eram mulheres brancas e de cabelo liso. Quando a gente tenta se encaixar, não rola. Nosso biotipo é diferente.
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