“Ataque de raiva pode ser doença”, afirma neurocientista
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Ansiedade, estresse e raiva estão interligados, como uma cascata de emoções. E, com pandemia, quarentena, incertezas do futuro e medo de adoecer, tudo se potencializa.
É o que explica Fabiano de Abreu, neurocientista, neuropsicólogo e neuropsicanalista. Segundo ele, precisamos ter cuidado com os ataques de raiva na pandemia – que podem, inclusive, ser sinais de doenças.
“Os ataques de raiva aumentaram na pandemia, sem dúvida”, diz ele, com formações na Universidade de Harvard e na Emil Brunner World University, nos Estados Unidos.
A seguir, ele ensina como enfrentar as emoções e explica como elas se manifestam.
Quem é Fabiano de Abreu?
- Bacharel em Neurociência pela Emil Brunner World University, nos EUA.
- Pós-Universitário em Neuropsicologia pela Cognos, em Portugal.
- Pós-Universitário em Neurociência, propriedades elétricas dos neurônios pela Universidade de Harvard, nos EUA.
ENTREVISTA
A TRIBUNA – A pandemia pode aumentar a ansiedade?
Fabiano de Abreu – Aumenta, com certeza. Primeiro nós, brasileiros, somos um povo ansioso. Por exemplo: a Organização Mundial da Saúde constatou, em 2019, que nós somos o povo mais ansioso do mundo (segundo a OMS, com dados de 2019, 8,6 milhões de brasileiros convivem com o transtorno).
A ansiedade está ligada às pendências: temos ansiedade, que se potencializa quando tem pendência de resolver problemas. Tem a incógnita do vírus, o medo de contrair, da parte econômica, do que será no pós-pandemia. .
Acredito, inclusive, que o número de mortes está relacionado a isso: a ansiedade leva ao estresse, um prato cheio nessa situação de quarentena, tudo anormal. O estresse é uma reação, e não uma emoção ou sentimento.
Pense: você está com sua ansiedade potencializada. E liga o gatilho do estresse. Esse estresse descontrola o seu cortisol, o hormônio que serve para manter a nossa imunidade alta. Ele vai combater o estresse, mas, como o estresse é constante, baixa a imunidade. Logo, somos um País com baixa imunidade – risco nesse momento da doença.
Como perceber que essa ansiedade virou um problema?
Quando você sente fadiga. Quando o cortisol está trabalhando para resolver o seu estresse, acaba usando sua glicose, energia, gordura, e você fica cansado por fora. Logo, cansaço é um sintoma comum.
Aliás, cansado é como você se sente depois de fazer um esforço. Fadiga você sente sem explicação: acordou e já está cansado, por exemplo.
Tem mais: quando você começa a sentir incômodo ou quando as pessoas dizem que sua ansiedade está incomodando. Ou quando você está perdendo o raciocínio. Quem perde o raciocínio lógico está com sintoma de ansiedade.
Há os casos mais sérios, a ponto de sentir calafrio, taquicardia, sudorese, boca seca, dor de cabeça, tontura, sintomas que você sente porque está com os neurotransmissores desregulados. Aí, é preciso procurar um profissional. Busque um psicólogo ou psicanalista. Se for direto ao psiquiatra, pode acabar tomando remédio, sem necessidade de ficar dependendo no futuro.
O senhor falou de ansiedade e estresse. Onde a raiva entra nisso?
A raiva – e alguns estão dando ataques de fúria nesta pandemia – é a perda da consciência dos atos. Ela se dá quando os neurotransmissores estão descontrolados. Isso possibilita inclusive ataques de raiva no ambiente doméstico. É aqui que entra a amígdala cerebral, onde ficam armazenadas nossas memórias primitivas, traumas e medos.
Quem tem ansiedade, tem a tendência de buscar as memórias na amígdala para resolver, dar solução. Só que seus neurotransmissores estão desregulados – uma consequência da quarentena e da pandemia – e não vão mandar informação para o lóbulo pré-frontal, onde você tem a razão.
Na pandemia, a ansiedade pode ser contínua e potencializada, com isso, o nível de estresse fica alto. E quando você tiver esses picos, o processamento não vai ser o ideal, tendo ataques de raiva, porque você não está pensando, indo para o lugar da razão.
E o excesso de raiva pode ser sinal de doença?
Sim. Ataque de raiva pode ser doença. Pode ser transtorno, síndrome, e até um processo de depressão. E isso precisa ser avaliado caso a caso. Geralmente, transtornos e síndromes estão ligados a traumas do passado. E tem que cuidar disso. O primeiro caminho é ter consciência do problema.
Mas por que os ataques de raiva podem ser potencializados na pandemia?
É um fato que aumenta. Porque se você tem descontrole, e esse momento é propenso para descontrole, há disfunção dos neurotransmissores. Eles não estão produzindo corretamente. E é no estresse que ele se revela. E toda essa situação de anormalidade contribui para isso.
É aí que mora a inteligência emocional para enfrentar – que é sinal de um lobo pré-frontal mais desenvolvido. Nossos cérebros não são iguais, tanto que existe teste de QI. E quando se tem inteligência emocional, você pensa antes de agir.
Quais os cuidados?
Primeiro, saber que precisamos ter cuidados. Tudo começa pelos hábitos. Pensemos que você pega um tênis, uma meia, e coloca do lado da cama pensando que, ao acordar, vai calçar e fazer um exercício aeróbico. Sabe que, assim, você vencerá a preguiça. Logo, usou o gatilho da ansiedade para fazer ginástica. Quando você fizer a ginástica, vai liberar neurotransmissões: dopamina, serotonina, diversos hormônios que controlam o humor. Você começa bem seu dia.
Depois, vai ler uma notícia. Mas de manhã. Porque, se você ler à noite, vai estar produzindo serotonina – o hormônio de quando acorda – ao invés da melatonina para dormir. E elas são produzidas no mesmo local.
Esses são exemplos de que como você configura o seu dia importa. Tem que dormir onze da noite, completar oito horas de sono. Noite foi feita para dormir. Dieta também é importante: a do Mediterrâneo é ideal.
Mas está tudo difícil nesse momento...
Não sabe o futuro? Organiza agora. Faz o presente ficar melhor. Usa a internet para deixar sua empresa melhor virtualmente, por exemplo. Tenta jogar com o que tem no momento. Faz um curso na internet. Tem gratuitos, ou pagos e baratos. O convívio também é necessário para liberar neurotransmissores. Somos felizes porque convivemos. Precaver-se, agora, é algo positivo para a nossa vida.
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