"Cheguei ao fundo do poço, mas me levantei", diz tenente que perdeu a esposa no dia do casamento
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Os planos eram: casar, preparar-se para o nascimento da Sophia e ter um futuro cheio de alegria. Porém, o que o tenente Flávio Gonçalves, de 32 anos, não esperava é que seus planos com a enfermeira Francisca Jessica Victor Guedes, 30, fossem interrompidos de forma trágica.
Ele perdeu a noiva minutos antes do casamento, em setembro do ano passado. Jessica, que estava grávida de seis meses, passou mal na porta da igreja e precisou fazer uma cesárea de emergência, mas não resistiu e teve morte cerebral. “Cheguei ao fundo do poço, mas me levantei pela minha filha”, contou Flávio.
De acordo com o tenente, que mora em São Paulo, a enfermeira teve eclâmpsia – convulsões que ocorrem durante a gestação ou logo após o parto e que alteram a pressão arterial da gestante.
Hoje, Flávio está licenciado para cuidar da filha e, em entrevista para A Tribuna, contou que tem se dedicado a Sophia Gonçalves Guedes, de 4 meses, que ainda precisa de cuidados médicos.
ENTREVISTA
Flávio Gonçalves – Nos conhecemos na escola. Estudamos juntos e gostava dela desde o ensino médio, porém só fomos ter o primeiro contato há sete anos, quando começamos a namorar. Há dois anos a pedi em casamento e estávamos muito felizes.
Nascemos na mesma maternidade e a vida nos encarregou de estarmos juntos. E, como todo casal, passamos por dificuldades. Sou militar desde os 18 anos, passei pelos Bombeiros e depois fui para a Polícia Militar, e meu trato com as mulheres sempre foi meio “chucro”, mas com a Jessica aprendi a tratar bem uma mulher.
Ela era uma pessoa tão boa, trabalhava com transfusão, métodos paliativos e sempre falava sobre o trabalho e como se ficava triste vendo as pessoas sofrerem. Fico me perguntando o por quê de ela ter ido.
Vocês planejaram a gravidez?
Na verdade, não. Tínhamos planejado o casamento para novembro do ano passado e, depois de um mês que resolvemos nos casar, veio a notícia da gravidez.
Adiantamos o casamento por causa da gravidez, e a nossa filha foi muito esperada e amada. Os planos de Deus a gente não entende.
Durante a gestação, a Jessica apresentou algum problema de saúde?
Ela era enfermeira, se cuidava, comia bem e fazia atividades físicas. Não tinha queixas.
Em algum momento ela apresentou sintomas?
Passei um mês fazendo um treinamento e fiquei longe dela. No retorno para casa, faltando uma semana para o casamento, fomos a uma consulta de rotina e a médica identificou que a Sophia estava com restrição de crescimento. Ela já estava com seis meses. Foi passado medicamentos e voltamos para casa.
Um dia antes do casamento retornamos na médica, já que tínhamos feitos outros exames. Lá foi dado um diagnóstico de alteração na tireoide. Porém, na verdade ela estava com picos de pressão alta, a bebê tinha a restrição de crescimento, e a Jessica estava muito inchada.
Mesmo com essas alterações, a médica não a internou?
Ela foi liberada, porém fomos informados que não poderíamos ir à nossa lua de mel, para monitorar a bebê. Só que no sábado do nosso casamento, pela manhã, às 4h30, ela passou mal, sentiu uma dor no estômago, e fomos para o hospital. Recebemos um novo diagnóstico de que poderia ser algo na vesícula. Ela foi medicada e liberada.
Como foi durante o dia do casamento?
Ela foi ter o dia de noiva com as madrinhas e estava muito feliz. Ligava a todo momento e ela não apresentava queixas. Também liguei para as primas dela que falavam que estava tudo bem.
Fui para o dia do noivo, ajudei na organização do salão e cheguei cedo à igreja e fiz questão de cumprimentar todos os convidados.
Sim. Ela ficou uns 30 minutos na porta da igreja e uma prima dela me chamou e disse que ela estava passando mal e havia desmaiado. Como já fui bombeiro, fiz os primeiros socorros, até que o socorro chegou. Fomos para o hospital do convênio dela, porém não tinha suporte para o parto.
Uma médica então nos falou de um outro hospital, que o convênio da Jessica não cobria, mas decidimos ir para lá. Chegando lá ela foi atendida, entrei na emergência e me entregaram a Sophia no colo.
Você sabia que algo não estava bem com a Jessica?
Quando me tiraram da emergência recebi a notícia que ela estava mal e depois recebi a notícia que ela estava sem atividade cerebral. Mesmo assim, fomos para um terceiro hospital fazer uma tomografia nela. Foi confirmada a morte cerebral e como o coração dela ainda batia decidimos doar os órgãos.
À meia noite tive a confirmação da morte dela. Doamos toda a comida do casamento para uma comunidade perto de onde moramos.
Como foram os dias seguintes à morte dela?
Cheguei ao fundo do poço, não queria comer, passei uma semana assim, mas me levantei pela minha filha. A Sophia precisa de mim. Ela passou 70 dias internada e muitas pessoas vieram me ajudar. Tive de me ressignificar, porque não aceitava. Hoje, muitas pessoas que passam por problemas entram em contato comigo para saber como sair de situação difícil. O amor é muito maior do que a dor, e a Sophia precisa de mim.
Hoje, quais têm sido seus maiores desafios?
A Sophia precisa de muitos cuidados e muitos médicos. São de três a cinco especialistas por semana. Estou afastado da polícia, sou o primeiro policial de São Paulo a ter licença (exclusivamente para cuidar da filha).
Cuido da Sophia, troco, dou banho, levo ao médico e minha sogra me ajuda durante o dia. Todos os cuidados que uma mãe tem, eu tenho com ela. A Sophia é um milagre de Deus. Ela teve trombose no coração, anemia, recebeu transfusão de sangue e plaquetas. Ela precisa muito de mim. A Jessica se foi e nós lamentamos muito, choro todos os dias, mas não posso desanimar.
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