Derrota de Trump nas eleições americanas pode afetar a economia do ES? Entenda
Nova composição do Congresso dos EUA pode aumentar pressão contra tarifas, mas rochas, aço e café ainda enfrentam incertezas
A derrota de Donald Trump nas eleições americanas, que tirou dos republicanos a maioria na Câmara e no Senado, redesenha o cenário político dos EUA. Mas quais serão os reflexos para a economia do Espírito Santo? Empresários e especialistas analisam quais podem ser os possíveis impactos.
Daniel Carvalho, analista de Risco Político e coordenador dos cursos de RI e Comércio Exterior, destaca que ainda é cedo para falar em vitória para o Espírito Santo ou em ganhos para o Brasil.
“O resultado eleitoral, por si só, não muda significativamente o cenário. A principal peça continua sendo Donald Trump, que mantém o poder de decisão sobre boa parte das medidas que afetam diretamente o comércio e as relações econômicas dos Estados Unidos com o Brasil”.
Segundo ele, para o Espírito Santo, o cenário mais provável é de continuidade das tarifas, com possibilidade de ajustes pontuais, negociações setoriais e abertura de exceções para determinados produtos, como resultado de articulações políticas e econômicas.
“Setores como rochas ornamentais, aço e café ainda enfrentam incertezas, enquanto fatores como juros americanos, câmbio e desaceleração da economia dos EUA podem ter impacto direto sobre as exportações capixabas”.
Para ele, a maior resistência do Congresso pode abrir espaço para negociações e para uma fiscalização mais rigorosa da política migratória, embora não haja perspectiva concreta de uma reforma nas regras de concessão de vistos.
Já o Sindicato do Comércio de Exportação e Importação do Espírito Santo (Sindiex ) disse que a nova composição do Congresso tende a aumentar a pressão interna sobre a política tarifária americana.
Para o Espírito Santo, o tema é estratégico. “Os Estados Unidos são o principal destino das exportações capixabas, com cerca de 27% do total em 2025. Qualquer avanço que reduza essas barreiras terá efeito direto sobre a economia do Estado, inclusive sobre a movimentação nos portos e na cadeia logística do comércio exterior”.
Diante desse cenário, o Sindiex defende que o governo brasileiro aproveite este momento para acelerar o grupo de trabalho bilateral criado, com foco técnico e pragmático, e para ampliar a lista de exceções, priorizando os setores mais expostos.
“A entidade também vê espaço para a diplomacia empresarial junto a parlamentares, importadores e setores produtivos americanos que dependem de insumos brasileiros. Previsibilidade e segurança jurídica são essenciais para quem importa e exporta”.
O que dizem os especialistas
Incertezas
“A vitória democrata não pode ser considerada necessariamente positiva ou negativa para o Brasil e o Espírito Santo. O resultado aumenta a pressão sobre Trump e cria obstáculos à sua agenda, mas não significa mudanças imediatas nas políticas comerciais e econômicas dos EUA. Medidas como tarifas e restrições à imigração dependem mais do Executivo e de disputas judiciais do que do Legislativo. A palavra final continua, em grande parte, nas mãos de Trump”.
Daniel Carvalho, analista de Risco Político
Pressão
“O cenário agora é de maior pressão para reduzir tarifas que encarecem produtos e prejudicam consumidores americanos, mas não se pode afirmar que haverá uma abertura comercial significativa. Para o Espírito Santo, essa discussão é especialmente relevante. Cerca de 1/3 das exportações capixabas tiveram os Estados Unidos como destino. Estamos falando de setores importantes, como rochas ornamentais, siderurgia, celulose e café. Então, uma eventual redução das barreiras comerciais poderia favorecer a competitividade das empresas, a produção e o emprego no Estado”.
Eduardo Araújo, economista, mestre pela Universidade de Oxford
Reduzir incertezas
“Para o Estado, esperamos que esse novo cenário contribua para reduzir incertezas, ampliar o diálogo comercial entre os países e proporcionar maior previsibilidade aos negócios. Embora os efeitos diretos das tarifas sejam mais concentrados nos setores exportadores, seus reflexos podem alcançar toda a economia, afetando investimentos, empregos, renda e consumo. Relações comerciais equilibradas são importantes para a competitividade das empresas”.
José Carlos Bergamin, vice-presidente da Fecomércio-ES
Fortalecer a economia
“A possível redução das tarifas americanas é positiva para o Espírito Santo, pois pode fortalecer a economia, preservar empregos, ampliar a renda e estimular o turismo. Por outro lado, a queda do dólar e a flexibilização dos vistos podem facilitar viagens aos EUA e aumentar a concorrência com destinos nacionais. Essas mudanças, porém, dependem de decisões futuras. Para a hotelaria capixaba, o desafio é aproveitar o crescimento econômico estadual e se preparar para disputar turistas brasileiros com destinos internacionais mais acessíveis”.
Fernando Otávio Campos, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado
Petróleo e dólar têm queda, mas especialistas mantêm cautela
A vitória dos democratas nas eleições legislativas dos Estados Unidos provocou uma reação positiva nos mercados financeiros ontem, com alta nas bolsas de valores, queda do dólar e forte recuo nos preços do petróleo.
Apesar da reação favorável dos mercados, analistas ponderam que os efeitos da eleição precisam ser avaliados com cautela e que o comportamento desses ativos continuará dependendo de fatores econômicos, políticos e internacionais.
Daniel Carvalho, analista de Risco Político e coordenador dos cursos de RI e Comércio Exterior, por exemplo, destaca que não é possível afirmar que uma vitória democrata no Congresso provocará uma queda permanente do dólar.
Segundo ele, há uma série de fatores que precisam ser considerados e que, muitas vezes, atuam em direções opostas. “Uma redução das expectativas de inflação provocada pelas tarifas e dos juros americanos, por exemplo, poderia exercer uma pressão de baixa sobre o dólar”.
Por outro lado, ele destaca que se as tarifas continuarem persistentes ou houver um novo choque no mercado de energia, provocado por uma alta no preço do petróleo, a tendência poderá ser de pressão de alta sobre a moeda americana”.
Ele cita que também é preciso considerar os fatores internos do Brasil. “Para saber quanto o dólar vai custar no País, é necessário observar como estará a política econômica brasileira, qual será a percepção dos investidores sobre o risco Brasil e como estarão os juros, entre outros elementos”.
Já Eduardo Araújo, economista e mestre pela Universidade de Oxford, ressalta que a reação positiva das bolsas de valores (como EUA e Brasil, por exemplo) pode estar associada à expectativa de uma política econômica mais previsível e de menor espaço para novas barreiras comerciais.
“O protecionismo tende a encarecer produtos, aumentar custos de produção e dificultar o comércio internacional. Portanto, uma eventual redução dessas restrições pode favorecer os negócios e a lucratividade das empresas”.
Por fim, ele pontua que é fato que o resultado eleitoral não significa necessariamente o fim das tarifas. “Por isso, parte da valorização das bolsas também está associada a outros fatores, como a redução das incertezas políticas e dos juros futuros”.
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