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OLHARES COTIDIANOS

A morte tem data. O luto, não

Planejar o futuro, valorizar a convivência entre gerações e criar memórias ajudam a reconhecer a importância de estar presente enquanto há tempo

Sátina Pimenta | | Atualizado em
Olhares Cotidianos, por Sátina Pimenta

Sátina Pimenta

Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.


          Imagem ilustrativa da imagem A morte tem data. O luto, não
Sátina Pimenta é psicóloga clínica, advogada e professora universitária. |  Foto: Divulgação

O Dia de Finados se aproxima e, para muita gente, não é apenas uma data no calendário. É quando a ausência e a saudade aparecem sem pedir licença. Ainda assim, passamos boa parte da vida evitando falar da morte, como se não pronunciar seu nome pudesse mantê-la longe.

Demorei até os 36 anos para perder alguém cuja ausência me fizesse compreender o que é viver um luto.

Talvez por isso eu tenha aprendido tarde que a morte é uma certeza sobre a qual quase nunca queremos conversar. Sabemos que vamos morrer e que as pessoas que amamos também, mas agimos como se o assunto pudesse esperar.

No Direito, isso aparece de um jeito curioso. Quando um advogado sugere organizar documentos, planejar a sucessão ou registrar em vida as próprias vontades, não é raro ouvir: “Já está querendo que eu morra?”. Não.

Algumas decisões podem ser tomadas com calma, pela própria pessoa, para evitar conflitos e dificuldades para quem ficar. Planejar não é desejar a morte. É cuidar também de quem continuará vivendo.

Tenho pensado muito nisso. Estou com 44 anos e meus mais velhos já estão em idade avançada. Minha avó completou 94 anos nesta semana.

Tenho tentado estar mais perto deles e incluí-los nas experiências da família. Estou preparando a festa de cinco anos da minha filha de um jeito maior do que o habitual, não apenas para tê-los comigo, mas para que vivam esse momento com ela: a festa, a música, a valsa, a alegria de vê-la crescer.

Não sei o que será daqui a 10 anos. Não é pessimismo, nem desejo que algo aconteça. É reconhecer que talvez nem todos possam estar aqui para viver as próximas etapas.

Dói perceber que precisei chegar tão perto dessa possibilidade para entender o valor de criar essas lembranças.

Às vezes, sinto culpa por não ter feito isso antes, por não ter vivido mais momentos com eles quando parecia haver tempo de sobra.

Mas o tempo nunca foi sobra. A gente é que costuma tratá-lo assim.

A música “Trem-Bala”, de Ana Vilela, nos lembra da importância das pessoas e dos instantes que dão sentido à vida.

Não precisamos esperar uma perda para entender essa mensagem, nem transformar cada encontro numa despedida antecipada. Viver com consciência da finitude não é passar os dias com medo do fim.

É deixar de adiar abraços, conversas, visitas e celebrações como se houvesse garantia de que tudo poderá ser feito depois.

Talvez a pergunta deste Finados não seja apenas de quem sentimos falta, mas o que estamos deixando para depois com quem ainda está aqui.

Que conversa adiamos? Que visita virou promessa? Que momento simples poderia se transformar em memória?

A morte tem data, embora quase nunca saibamos qual. O luto não obedece ao calendário, e o amor não deveria depender da proximidade da despedida para ser demonstrado.

Não podemos mudar o tempo que passou, nem controlar quanto tempo nos resta. Mas podemos escolher o que fazer com o tempo que ainda temos. Estar presente não deveria ser uma providência de última hora.

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Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.

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