Você está realmente escutando?
Escutar de verdade exige presença, atenção e disposição para compreender o que o outro e o próprio corpo comunicam
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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Falar de saúde mental deixou de ser novidade. Ainda bem. O assunto entrou nas empresas, nas escolas, nas famílias, nas redes sociais e nas conversas de mesa de bar. Mas há uma pergunta que continua incômoda: estamos realmente escutando?
O tema escolhido para o Dia Mundial da Saúde Mental de 2026 fala em experiências vividas, ouvidas, vozes reais e mudanças reais. E talvez exista aí uma provocação maior do que parece. Porque ouvir é uma coisa. Escutar é outra. E escutar, de verdade, dá trabalho.
Eu posso ouvir alguém falar e continuar pensando no que vou responder. Posso ouvir meu filho e já preparar uma solução. Posso ouvir um colega de trabalho e, enquanto ele fala, procurar justificativas. Posso até ouvir meu próprio corpo e decidir que aquela dor, aquele cansaço, aquela irritação “não são nada”. O som chegou. A mensagem, não.
Escutar exige presença. Exige diminuir os ruídos — inclusive aqueles que carregamos dentro da cabeça. Exige olhar, quando possível, não interromper, não completar a frase do outro e suportar aqueles dez segundos de silêncio antes de responder. Uma técnica simples: escute até o fim. Espere dez segundos. Só então fale.
A psicologia há muito nos convida a este aqui e agora. O mindfulness também. Não é preciso gostar de meditação para experimentar. Pare. Respire. Inspire contando até seis. Expire contando até seis. Perceba o corpo. O que ele está dizendo enquanto você passa o dia inteiro ocupado demais para escutá-lo?
E não é apenas o outro que fala. O mundo também comunica. A natureza, por exemplo, tem uma linguagem que não precisa de legenda. Quem observa uma cachoeira, o mar, uma tempestade ou mesmo o silêncio de uma manhã percebe que há informações ali. Até quem pratica determinadas atividades na natureza aprende que, antes de avançar, é preciso observar as condições do ambiente.
Nas empresas, isso também deveria ser levado a sério. Uma organização fala o tempo todo, mesmo quando ninguém está oficialmente falando. As pessoas contam como ela está pelo que dizem nos corredores, pelo silêncio nas reuniões, pelo absenteísmo, pelos conflitos, pelo medo de discordar, pela maneira como as lideranças são percebidas. Não adianta colocar missão, visão e valores na parede se a experiência cotidiana conta uma história completamente diferente.
Escutar é receber informação. E informação, quando realmente recebida, nos obriga a rever alguma coisa. Uma decisão. Um comportamento. Uma relação. Uma regra. Uma rota.
Talvez o problema não seja que as pessoas não estejam falando. Elas estão. O problema é que nós nos acostumamos a ouvir sem deixar que aquilo que ouvimos nos transforme.
Porque escutar de verdade tem uma consequência inevitável: depois que você escuta, já não pode dizer que não sabia.
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