Exame que detecta 50 tipos de câncer tem limitações
Oncologistas alertam que ainda faltam evidências científicas de que o teste de fato ajude a reduzir as mortes pela doença
Um exame de sangue capaz de identificar sinais de mais de 50 tipos de câncer começou a ser comercializado no Brasil, mas a novidade tem provocado ressalvas entre especialistas.
Oncologistas alertam que ainda faltam evidências científicas de que o teste contribua para reduzir de fato mortes pela doença e reforçam que ele não substitui os exames tradicionais de rastreamento.
Chamado Galleri, o teste custa R$ 6.990 e analisa fragmentos de DNA presentes na corrente sanguínea em busca de alterações que indiquem a presença de tumores.
O oncologista clínico Fernando Zamprogno, coordenador da Oncologia da Rede Meridional, explica que uma das principais limitações do teste está na falta de comprovação de que sua utilização contribua para reduzir casos de câncer em estágios avançados ou aumentar as chances de cura.
Segundo ele, embora a tecnologia permita identificar fragmentos de DNA tumoral na corrente sanguínea, ainda existem dúvidas sobre sua eficácia como ferramenta de rastreamento. “O câncer, inicialmente, quando ele é mais curável, não necessariamente manda DNA para o sangue”, explica.
Para o especialista, um dos maiores riscos é que um resultado negativo provoque uma falsa sensação de segurança, levando o paciente a acreditar que não precisa realizar exames de rastreamento já recomendados. “Além disso, temos o custo elevado para um teste que não se tem uma definição sobre a frequência com que ele deveria ser realizado.”
O oncologista clínico Wesley Vargas também defende cautela em relação ao uso do novo exame.
Segundo ele, o teste ainda não reúne evidências suficientes para ser utilizado como ferramenta de rastreamento em larga escala. Para o especialista, a indicação deve ser avaliada individualmente, considerando o histórico de saúde e os fatores de risco de cada paciente. “Pode ser que para um caso ou outro seja viável fazer o teste, mas não dá para dizer, até porque é algo ainda novo.”
O oncologista chama a atenção para a publicidade em torno da tecnologia e alerta para o risco de criar expectativas que ainda não são sustentadas por evidências científicas.
Teste amplia possibilidades de detecção, diz grupo
A possibilidade de identificar sinais de mais de 50 tipos de câncer por meio de uma coleta de sangue representa, segundo o Grupo Fleury, uma nova ferramenta para ampliar a detecção da doença, especialmente de tumores que não contam com exames de rastreamento de rotina.
O presidente de Unidades de Negócios Médica, Técnica, Hospitais, Novos Elos e Inovação do Grupo Fleury, Edgar Gil Rizzatti, explica que uma das vantagens da tecnologia é a possibilidade de identificar sinais associados a cânceres de difícil diagnóstico, como os de pâncreas, fígado, ovário e esôfago.
O executivo reconhece, porém, que a capacidade de detecção varia conforme o tipo e o estágio do tumor. Isso porque tumores maiores geralmente liberam mais fragmentos de DNA na corrente sanguínea, aumentando as chances de identificação.
Rizzatti também reforça que o Galleri não substitui os exames tradicionais de rastreamento, como mamografia, colonoscopia e preventivo do câncer do colo do útero. “Com o uso do Galleri, a gente não está autorizado a deixar de fazer esses exames. O que ele faz é trazer uma gama adicional de cobertura”, afirma.
Sobre as críticas de especialistas à falta de comprovação de benefícios na redução das mortes por câncer, Rizzatti pondera que ainda são necessários estudos com acompanhamento prolongado.
De acordo com ele, a expectativa é que novos resultados científicos ajudem a esclarecer os benefícios e as indicações do exame nos próximos anos.
Saiba mais
Teste
- O Einstein Hospital Israelita anunciou que passou a oferecer o primeiro teste comercial disponível no País que busca, em uma amostra de sangue, sinais moleculares associados a mais de 50 tipos de câncer.
- Chamado Galleri, o teste foi desenvolvido pela empresa norte-americana Grail e é comercializado no Brasil pela Genesis Genomics, joint venture do Einstein com o Grupo Fleury.
Valor
- O exame custa R$ 6.990 e é feito mediante solicitação médica (não é coberto por planos de saúde). A amostra coletada é enviada aos Estados Unidos para processamento. O resultado sai em cerca de um mês.
Indicação
- O Galleri é indicado principalmente para adultos com 50 anos ou mais, sem sintomas sugestivos de câncer, faixa em que a incidência da doença começa a aumentar de forma mais acentuada. Pessoas com histórico familiar ou outros fatores de risco também podem ser consideradas.
- O teste não é recomendado para gestantes nem para pacientes em tratamento ativo contra o câncer.
Complemento
- A proposta é que o Galleri seja um complemento às estratégias já existentes, inclusive para cânceres que não têm exames de rotina, como de pâncreas, fígado e ovário. Ele não substitui os métodos já recomendados, como mamografia, colonoscopia e Papanicolau.
Como o teste funciona?
- O Galleri é um tipo de biópsia líquida. Em vez de retirar um fragmento do tumor, o exame procura no sangue sinais que possam indicar a presença de células cancerígenas. Células tumorais podem liberar no organismo pequenos fragmentos de DNA na circulação.
- O Galleri analisa esses fragmentos de DNA livre circulante e procura alterações químicas que ajudam a diferenciar o DNA de células cancerígenas do material liberado por células normais.
- O desempenho, porém, não é igual para todos os tumores. Alguns tipos de câncer liberam mais DNA tumoral, enquanto outros liberam menos.
Sem confirmação
- O Galleri é um teste de rastreamento, não um exame diagnóstico. Isso significa que um resultado positivo indica a presença de um sinal suspeito, mas não confirma que a pessoa tenha câncer. Quando o teste identifica um sinal, ele fornece uma indicação sobre o possível local de origem. A partir daí, o paciente precisa passar por outros exames.
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