Era das canetas pode criar novas “epidemias”
Perda de massa magra, queda de cabelo, pedras na vesícula e alterações gastrointestinais estão entre as complicações
A perda de peso expressiva transformou medicamentos como semaglutida (Ozempic e Wegovy) e tirzepatida (Mounjaro) em aliados no tratamento do sobrepeso e da obesidade, mas os efeitos dessas substâncias não se resumem apenas aos quilos eliminados na balança.
Com o avanço do uso das canetas antiobesidades, chamadas de emagrecedoras, cresce a preocupação com possíveis novas “epidemias” de problemas de saúde, associadas tanto ao emagrecimento quanto ao uso inadequado desses medicamentos, especialmente de produtos sem aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Perda de massa magra, queda de cabelo, pedras na vesícula e alterações gastrointestinais estão entre as complicações que exigem atenção.
O cirurgião do aparelho digestivo Gustavo Peixoto, diretor nacional da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), explica que as canetas são medicamentos muito úteis no controle e no tratamento da obesidade para pacientes com diabetes, sobrepeso e obesidade.
O médico aponta, porém, que uma grande parcela da população tem usado essas medicações, muitas vezes, de forma clandestina e com finalidade cosmética ou recreativa. Há ainda aqueles que usam a medicação legalizada, mas não têm indicação para utilizá-la.
“É cada vez maior a quantidade de pacientes que chegam ao consultório com um ultrassom de dois anos atrás, sem cálculos na vesícula, que usaram a medicação, seja um análogo de primeira ou de segunda geração, perderam 10 ou 12 quilos e desenvolveram cálculos biliares”.
Intestino
Outro problema frequentemente observado é a constipação intestinal que, segundo a gastroenterologista e nutróloga Christian Kelly Ponzo, da Unidade do Sistema Digestivo do Hucam, é um efeito adverso frequente e comprovado dessas medicações.
“Ela pode ocorrer por alterações da motilidade intestinal, redução da ingestão alimentar e, em alguns pacientes, menor ingestão de líquidos”.
A médica alerta, entretanto, que é preciso ter atenção redobrada ao íleo e formação de fecalomas, que podem levar à obstrução intestinal.
Outra queixa de evento adverso é a queda de cabelo. A médica Ana Cláudia Barbosa, que trata queda de cabelo e doenças do couro cabeludo, explica que o problema não tem relação direta com a substância da caneta, mas com o déficit calórico provocado pelo uso da medicação.
“Chegam-se menos nutrientes para as células do corpo, incluindo do folículo capilar, levando à queda”, explica.
EFEITOS COLATERAIS
Perda de músculo
O emagrecimento com medicamentos à base de agonistas de GLP-1, isolados ou combinados com ação sobre GIP, pode envolver a redução tanto da gordura quanto da massa magra. O risco é maior quando a perda de peso é muito rápida, a alimentação é insuficiente e não há acompanhamento profissional.
A endocrinologista Maria Amélia explica que, em intervenções para perda expressiva de peso, seja por dieta, cirurgia ou medicação, envolve a redução conjunta de gordura e massa magra, sendo esperado que de 10% a 20% do total eliminado corresponda a músculo. Segundo ela, a perda muscular merece atenção especial em idosos, pessoas com risco de sarcopenia e mulheres na pós-menopausa, porque pode comprometer a força física e reduzir o gasto energético.
Queda de cabelo
Ainda não é possível afirmar que os agonistas de GLP-1 provoquem diretamente a queda de cabelo em todos os casos. O que é possível perceber, segundo especialistas, é que a perda de peso rápida pode levar a deficiências de ferro, zinco e outras vitaminas, responsáveis pelo ciclo de crescimento capilar. A médica Ana Cláudia Barbosa explica que a redução acentuada da ingestão alimentar pode diminuir a oferta de nutrientes aos folículos capilares, levando ao enfraquecimento dos fios.
Queda de cabelo
Ainda não é possível afirmar que os agonistas de GLP-1 provoquem diretamente a queda de cabelo em todos os casos. O que é possível perceber, segundo especialistas, é que a perda de peso rápida pode levar a deficiências de ferro, zinco e outras vitaminas, responsáveis pelo ciclo de crescimento capilar. A médica Ana Cláudia Barbosa explica que a redução acentuada da ingestão alimentar pode diminuir a oferta de nutrientes aos folículos capilares, levando ao enfraquecimento dos fios.
Pedras na vesícula
A associação entre o uso de agonistas de GLP-1 e o aumento do risco de doenças da vesícula biliar – principalmente pedra na vesícula – é sustentada por evidências científicas. Entre os fatores envolvidos estão a perda rápida de peso e possíveis alterações na motilidade da vesícula.
A médica Christian Kelly cita uma metanálise de 76 ensaios clínicos randomizados, com mais de 100 mil participantes, que identificou aumento relativo de aproximadamente 37% no risco de doenças biliares e da vesícula entre usuários desses medicamentos. O aumento foi mais evidente em estudos envolvendo tratamentos para perda de peso, doses maiores e uso prolongado.
Imagem corporal e transtornos alimentares
A popularização das canetas também levanta questões sobre a relação das pessoas com o peso, a aparência e a alimentação, mas ainda não há evidências suficientes para afirmar que elas causem diretamente o transtorno dismórfico corporal.
A psiquiatra Sarah Andrade avalia que a medicação, por si só, não cria necessariamente um transtorno alimentar, mas pode potencializar vulnerabilidades pré-existentes. Em pessoas predispostas, a redução do apetite e a perda de peso podem se associar à intensificação de comportamentos restritivos ou de uma preocupação excessiva com o corpo.
Suboclusão intestinal
A situação em que há comprometimento da passagem do conteúdo intestinal tem aumentado, segundo o cirurgião do aparelho digestivo Gustavo Peixoto.
Segundo ele, na maioria das vezes, o problema é causado por protocolos clandestinos, utilizados por pessoas que nem sequer teriam indicação para usar o medicamento.
SAIBA MAIS
Uso de canetas
> 62% dos brasileiros afirmam conhecer alguém que utiliza ou já utilizou algum tipo de caneta para perda de peso, segundo Instituto Locomotiva.
> 1 a cada 3 domicílios (33%) há pelo menos um morador que faz ou fez uso.
> 24% dos entrevistados já utilizaram as canetas — sendo 11% usuários atuais.
> 4 em cada 10 usuários adquiriram o produto sem prescrição médica, pela internet ou no exterior.
Uso clandestino
> 53,8% das doses de GLP-1 em circulação no País, no primeiro semestre de 2026, tiveram origem fora dos canais formais de comercialização, contra 46,2% vendidas em farmácias regularizadas, aponta estudo da Scanntech.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários