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OLHARES COTIDIANOS

Prever não é controlar

Previsões não garantem o futuro, mas podem ajudar a tomar decisões e reduzir riscos diante do que já é possível saber

Sátina Pimenta | | Atualizado em
Olhares Cotidianos, por Sátina Pimenta

Sátina Pimenta

Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.


          Imagem ilustrativa da imagem Prever não é controlar
Sátina Pimenta é psicóloga clínica, advogada e professora universitária. |  Foto: Divulgação

Hoje de manhã, meu marido me disse uma coisa absolutamente prosaica: “Não deixa meu carro na rua porque está com previsão de tempestade. Eu não quero o carro molhado e sujo. Acabei de lavar”.

Moramos em um lugar em que nossas vagas são contínuas. Para eu sair, o carro dele ficaria na rua. A informação estava ali: previsão de chuva e um carro limpinho. Então, tirei o meu carro, coloquei o dele para dentro e seguimos a vida.

Parece uma bobagem. E é. Mas foi justamente essa bobagem que me fez pensar: para que serve uma previsão se não utilizamos a informação?

Prever não significa ter certeza do futuro. Significa olhar para os dados disponíveis e decidir considerando aquilo que pode acontecer. Não é viver engessado ou tentar controlar o incontrolável. É perguntar: “O que eu já sei? Que riscos existem? O que posso fazer para reduzi-los?”.

A discussão ganhou outra dimensão esta semana depois da queda do helicóptero que matou o cantor Rick, da dupla Rick e Renner, e quatro outras pessoas. Havia condições meteorológicas adversas na região, mas as causas ainda estão sendo investigadas. Não me interessa, portanto, transformar uma tragédia em uma conclusão que os fatos não permitem.

O que me interessa é a pergunta: o que fazemos quando uma informação pode mudar nossa decisão?

Fazemos isso o tempo inteiro. A previsão indica chuva e levamos um guarda-chuva. O aplicativo mostra trânsito intenso e mudamos o caminho.

Um exame aponta um fator de risco e procuramos acompanhamento. No trabalho, perceber sinais de sofrimento pode permitir uma intervenção antes que o problema se agrave.

Nenhuma dessas escolhas garante que nada de ruim acontecerá. O guarda-chuva não impede a tempestade nem o acompanhamento elimina todos os riscos. Prevenção não é controle.

Talvez essa seja uma das maiores confusões da vida: acreditar que, porque algo não é totalmente previsível, não precisamos considerar as informações que temos.

Temos liberdade para fazer o que quisermos, inclusive olhar para um risco e decidir seguir adiante. A liberdade permanece. Mas liberdade não significa ausência de consequência.

Eu poderia ter deixado o carro do meu marido na rua. Talvez nem chovesse. Talvez o carro continuasse limpo. Mas eu tinha uma informação. E mudar a posição de dois carros levou menos de cinco minutos.

Às vezes, prevenir exige pouco: uma conversa, um limite, uma consulta, um planejamento, um caminho diferente.

Nem sempre será possível evitar o que está por vir. A vida tem uma dose inevitável de imprevisibilidade. Há acontecimentos contra os quais não temos defesa.

Existe diferença entre não conseguir prever e não querer olhar para o que já pode ser previsto.

Meu marido só queria evitar que o carro ficasse sujo. E aquela pequena conversa dizia muito sobre a vida: quando temos uma informação capaz de mudar nossa decisão, talvez valha a pena parar alguns segundos antes de seguir.

Não para controlar o futuro, mas para não ignorar o presente.

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