O que é ser independente?
Entre a ilusão da autossuficiência e a coragem de precisar do outro: o que realmente significa ser autônomo na vida real?
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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O 7 de Setembro está chegando e, mais uma vez, vamos falar sobre independência. A do Brasil, naturalmente. Portugal, rompimento político, interesses econômicos, disputas de poder e todo aquele processo histórico que aprendemos na escola. Mas, enquanto penso na independência de um país, não consigo deixar de fazer uma pergunta muito mais cotidiana: afinal, o que significa ser independente?
Porque, convenhamos, a palavra ganhou uma espécie de status de superpoder. Ser independente parece significar resolver tudo sozinho, não pedir ajuda, não depender de ninguém e, de preferência, ainda postar nas redes sociais uma foto com a legenda: “Eu me basto”.
Mas será que é mesmo assim? Uma pessoa independente é aquela que não precisa do outro? Se for, talvez tenhamos um pequeno problema. Afinal, somos seres sociais.
A psicologia nos mostra isso o tempo todo e Aristóteles já havia percebido, há muitos séculos, que o ser humano não foi feito para viver completamente isolado. Nós nos constituímos nas relações, influenciamos e somos influenciados por quem está à nossa volta.
Aliás, essa ideia de independência absoluta começa a desmoronar logo cedo. Ninguém nasce sozinho, cresce sozinho ou chega muito longe completamente sozinho. Mesmo aquela pessoa que afirma, com bastante orgulho, que “não precisa de ninguém” provavelmente tomou café com alimentos produzidos por alguém, vestiu roupas feitas por alguém e chegou ao trabalho utilizando uma cidade inteira construída pelo trabalho coletivo. Independente, sim. Mas talvez nem tanto.
Então, talvez seja preciso diferenciar independência de autonomia.
Para Kant, autonomia está relacionada à capacidade de orientar a própria vida e assumir responsabilidade pelas próprias escolhas. Isso não significa não precisar de ninguém. Significa não entregar completamente ao outro a responsabilidade por decidir quem somos e para onde vamos.
E talvez essa seja uma forma mais honesta de pensar a liberdade. Porque pedir ajuda não é fracasso. Precisar de alguém não deveria significar fraqueza. Existe uma diferença importante entre estabelecer relações de dependência que nos aprisionam e reconhecer que algumas pessoas tornam a nossa caminhada possível.
Simone de Beauvoir também nos lembra, de diferentes maneiras, que ninguém constrói a própria existência fora do mundo. Nossas escolhas acontecem dentro de condições sociais, econômicas e culturais. Nem todos começam do mesmo lugar.
Por isso, dizer simplesmente “basta querer ser independente” é uma frase bonita para uma caneca motivacional, mas bastante insuficiente para explicar a vida real.
Queremos dar conta de tudo: trabalhar, cuidar da casa, administrar as emoções, ter uma vida social ativa e, se possível, ainda parecer bem enquanto fazemos tudo isso. Afinal, demonstrar cansaço estraga um pouco a estética da independência.
Contudo, a verdadeira maturidade pode estar em reconhecer que ninguém é uma ilha. Ser autônomo não significa viver sozinho. Significa poder fazer escolhas sem desaparecer dentro das escolhas dos outros.
Neste 7 de Setembro, nos façamos uma pergunta mais íntima: de quais dependências precisamos nos libertar e de quais relações não precisamos fugir?
Porque, no final das contas, talvez a independência absoluta seja uma bela ideia. Daquelas que ficam ótimas em um discurso. Na vida real, felizmente, ainda precisamos uns dos outros.
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