Estudo mostra combinações perigosas de remédios para idosos
“Cascata de prescrições” pode provocar novas complicações de saúde e aumentar o risco de efeitos adversos
Um novo estudo canadense mostrou que os efeitos colaterais de alguns remédios frequentemente receitados a idosos podem ser confundidos com um novo problema de saúde e levar a uma nova prescrição.
O efeito, conhecido como “cascata de prescrições”, além de causar um uso desnecessário de medicamentos, pode ainda trazer novas complicações de saúde e aumentar o risco de efeitos adversos.
A geriatra Fernanda Sperandio, presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia - Seção Espírito Santo (SBGG-ES), explica que os idosos são mais vulneráveis por apresentarem várias doenças crônicas e utilizarem uma série de medicamentos.
“Quanto maior o número de medicamentos, maior a possibilidade de efeitos adversos, interações medicamentosas e sintomas que podem ser confundidos com novas doenças”.
Um exemplo citado pelo estudo, que analisou quase 2,3 milhões de idosos a partir de 66 anos, é o uso de suplemento de ferro, que pode causar constipação. Caso essa relação não seja identificada, o paciente pode acabar recebendo um laxante para tratar o sintoma.
“Na prática, diante de constipação após o início do ferro, o ideal é avaliar se o ferro continua indicado, qual é a dose, qual formulação está sendo utilizada e se existem outras causas antes de receitar o laxante”, diz Fernanda.
Em alguns casos, o tratamento precisa ser revisto, segundo o geriatra Roni Mukamal, superintendente do Programa Bem Envelhecer da MedSênior.
“Quando o efeito adverso é mais grave ou causa sintomas importantes, é necessário trocar ou suspender o medicamento, sempre com orientação médica”.
Para evitar esse tipo de cascata, a geriatra Yara Nippes recomenda manter uma lista atualizada com os medicamentos utilizados.
“Essa lista, que deve estar sempre atualizada, com nomes e horários, deve ser levada às consultas e revisada periodicamente”.
Sempre atento
A rotina do aposentado Jânio Araújo, de 64 anos, inclui uma série de medicamentos.
Além de criar uma organização para não esquecer nenhum, ele diz que fica atento aos efeitos colaterais, principalmente após ter problemas de infecção urinária causados por um remédio de controle de diabetes.
“O tempo vai passando e vamos precisando tomar cada vez mais remédios. Por isso, tento sempre ficar atento para não comprometer o tratamento”.
Risco por causa de doenças crônicas
Cascata de prescrição
Acontece quando um efeito adverso de um medicamento é interpretado como um novo problema de saúde e, em vez de se questionar o medicamento que causou o sintoma, é prescrito um segundo medicamento para tratá-lo.
Em idosos, o risco é maior principalmente porque eles frequentemente apresentam doenças crônicas e utilizam vários medicamentos simultaneamente, sendo maior a possibilidade de efeitos adversos.
1 - Suplemento de ferro e laxante
O ferro oral pode causar constipação como efeito colateral, principalmente em pessoas que já apresentam tendência à prisão de ventre. Para aliviar o problema, o paciente pode acabar recebendo um laxante.
2 - Estatina e analgésico
Medicamentos usados para controlar o colesterol (estatinas) podem provocar dor, sensibilidade ou fraqueza muscular em alguns pacientes. Se a relação com o medicamento não for percebida, pode entrar um analgésico para controlar a dor.
3 - Bloqueador dos canais de cálcio e diurético
Medicamentos como a amlodipina bloqueador dos canais de cálcio, usados no controle da pressão arterial, podem provocar inchaço nas pernas e nos tornozelos. O edema pode ser interpretado como retenção de líquido e resultar no uso de um diurético.
4 - Anticolinérgico e laxante
Medicamentos com efeito anticolinérgico, que reduzem a ação de certos sinais do sistema nervoso, podem diminuir os movimentos do intestino e causar constipação, levando ao uso de laxantes.
5 - Antidepressivo e laxante
Alguns antidepressivos podem causar constipação, especialmente aqueles com maior efeito anticolinérgico. Nesses casos, o sintoma pode acabar sendo tratado com laxantes.
6 - Diurético e suplemento de potássio
Alguns diuréticos aumentam a eliminação de potássio pela urina e podem provocar queda nos níveis desse mineral no sangue, levando à necessidade de reposição.
7 - IECA e medicamento para tosse
Medicamentos da classe dos inibidores da enzima conversora de angiotensina, usados para tratar hipertensão podem provocar tosse seca persistente. Quando o efeito não é associado ao medicamento, a tosse pode ser tratada separadamente.
8 - Diurético e medicamento para bexiga hiperativa
Os diuréticos aumentam a produção de urina e podem fazer com que o paciente vá mais vezes ao banheiro ou apresente maior urgência para urinar. Esses sintomas podem ser confundidos com um problema da bexiga e gerar uma nova medicação.
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