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OLHARES COTIDIANOS

Setembro Amarelo em questão

Quando a solidariedade deixa de ser legenda e passa a olhar para as estruturas que sustentam a vida

Sátina Pimenta | | Atualizado em
Olhares Cotidianos, por Sátina Pimenta

Sátina Pimenta

Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.


          Imagem ilustrativa da imagem Setembro Amarelo em questão
Sátina Pimenta é psicóloga clínica, advogada e professora universitária. |  Foto: Divulgação

Eu demorei para falar de Setembro Amarelo. Demorei porque, sendo uma coluna chamada Olhares Cotidianos, eu queria primeiro olhar. Chega setembro e as redes ficam tomadas pelo amarelo: “busque ajuda”, “você pode contar comigo”. Frases importantes. Mas já aprendemos a desconfiar quando a solidariedade vira legenda. A diferença está entre parecer disponível e estar disponível.

Neste ano, olhando, encontrei algo que me chamou a atenção. O Setembro Amarelo parece ter começado a sair do indivíduo e começado a olhar para o mundo que o cerca.

Vi pessoas falando sobre aquilo que vem de fora e ocupa o dentro: fome, moradia, desigualdade, insegurança e falta de perspectivas. Vi a conversa chegar às políticas públicas e ao mínimo existencial – o básico para viver com dignidade.

Em vez de apenas “o que há de errado com essa pessoa?”, começamos a perguntar: “que mundo é esse no qual essa pessoa está tentando existir?”.

É impossível não lembrar de Émile Durkheim, sociólogo que mostrou que o suicídio não poderia ser compreendido apenas como fenômeno individual.

Existem forças sociais que atravessam nossas vidas, nossos vínculos e nosso pertencimento. O sofrimento também pode ser sustentado pelos contextos em que vivemos.

E essa discussão inclusive chegou ao ambiente de trabalho! Talvez pela obrigatoriedade da nova NR1! Tomara! Afinal, passamos boa parte da vida trabalhando, e não dá para falar em saúde mental ignorando assédio, sobrecarga, insegurança, falta de reconhecimento e ambientes que adoecem.

Cuidar não é colocar uma frase bonita no mural. É olhar para a organização do trabalho e reconhecer que riscos psicossociais também fazem parte da responsabilidade de quem conduz uma empresa.

Também me tocou ver a discussão sobre suicídio na infância. Uma “brincadeira” sobre o corpo, o jeito de falar, o desempenho ou a diferença podem produzir uma dor que não termina quando a risada acaba.

A criança talvez não consiga nomear o sofrimento, mas vive. Cabe aos adultos perceber sinais e construir espaços onde pedir ajuda não seja motivo de vergonha e respeitar o coleguinha seja prática diária.

Talvez este seja o Setembro Amarelo que eu estava esperando: menos preocupado em pintar feeds de amarelo e mais disposto a olhar para o contexto que nos atravessa. A ideia de que quem pensa em suicídio tem “mente fraca” reduz uma vida inteira a um rótulo.

Não é apenas uma mente. Não é apenas um indivíduo. Existe uma história, uma família, uma escola, um trabalho, uma cidade, relações e ausências.

Se suicídio é uma questão de saúde pública, precisamos cobrar respostas públicas: cuidado desde a infância, proteção, educação, trabalho digno, acesso à saúde e redes que funcionem quando alguém não consegue mais sustentar tudo sozinho. Cuidar da vida é cuidar do mundo que colocamos ao redor dela.

Talvez a pergunta deste Setembro Amarelo não seja apenas “você está bem?”. Talvez seja: “o que estamos fazendo para que as pessoas possam estar bem?”. Que tipo de família estamos construindo? Que escolas? Que relações? Que ambientes de trabalho? Que cidade? Porque, se o sofrimento também é atravessado pelo mundo, cuidar da vida exige mais do que oferecer ajuda quando a dor chega ao limite.

Exige que cada um de nós olhe para o que faz, para o que permite e para o que poderia transformar. Afinal, que mundo estamos construindo para o outro – e para nós mesmos?

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Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.

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Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.

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