49 crianças e adolescentes internados este ano após acidentes com bicicletas no ES
Número se refere ao total de crianças e adolescentes com idade entre 5 e 14 anos feridos entre janeiro e junho no Estado
O crescimento do uso de bicicletas elétricas e convencionais nas ruas trouxe um novo desafio: proteger quem ainda está aprendendo a conviver com o trânsito. Nos primeiros seis meses deste ano, 49 crianças e adolescentes foram internados após acidentes envolvendo bicicletas no Espírito Santo.
Os dados são da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). Ao todo, 306 pessoas ficaram internadas nesses tipos de acidentes entre janeiro e junho.
Números mostram crescimento nos últimos anos
Os registros não fazem distinção entre bicicletas convencionais e elétricas, mas apontam uma alta recente. Em 2024, foram 378 internados durante todo o ano; em 2025, o total saltou para 588 internações.
Por faixa etária, as principais internações deste ano são dos mais jovens:
- 5 a 14 anos: 49 internados
- 15 a 24 anos: 52 internações
Médicos alertam para gravidade das lesões
O coordenador da Ortopedia do Hospital Antônio Bezerra de Faria, Igor Vasconcelos, afirma que o aumento dos atendimentos já é percebido na rotina dos hospitais. Ele chama atenção para a gravidade dos acidentes, em especial com as bicicletas elétricas.
"A bike elétrica se comporta como uma moto pequena no trânsito em relação à velocidade e gravidade das lesões"
Segundo o médico, os casos vão desde contusões e escoriações até fraturas mais graves, principalmente quando o acidente ocorre em alta velocidade ou envolve veículos maiores. A preocupação é ainda maior entre os adolescentes, que já representam parte das internações.
"Antes de entregar a velocidade, os pais precisam entregar também a maturidade"
Adolescentes e a falta de experiência no trânsito
O presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) Regional Espírito Santo, o ortopedista Jair Simmer Filho, enfatizou que as ocorrências com bicicletas elétricas são uma preocupação geral da sociedade ortopédica.
"Temos visto acidentes graves, comprometendo a saúde de pessoas jovens, assim como também atropelamentos de pessoas de mais idade."
No caso dos adolescentes, a pouca experiência no trânsito aumenta a vulnerabilidade.
"Existe uma geração que mal andou de bicicleta e que, de repente, está com bicicleta elétrica, com acelerador"
"Eu operei o joelho do meu filho"
Há cerca de dois meses, o ortopedista especialista em joelho Vladimir de Almeida viveu dentro de casa os reflexos do crescimento da circulação das bicicletas elétricas: o filho dele, Arthur Hegner de Almeida, de 16 anos, foi atropelado por outra bike elétrica enquanto aguardava para atravessar a avenida Rio Branco, na Praia do Canto, em Vitória.
O impacto provocou uma grave lesão no joelho. “Eu mesmo tive que operar o joelho do meu filho”.
O adolescente, que já usava bicicleta elétrica havia cerca de um ano e meio para ir à escola, rompeu ligamentos e teve lesão no menisco.
Hoje, o jovem está em recuperação e faz fisioterapia e treinamento muscular. O futebol, uma das atividades que praticava antes do acidente, ainda vai esperar: a previsão é de que ele só possa voltar a jogar após oito meses.
A Tribuna: Como aconteceu o acidente com seu filho?
Vladimir Almeida: Ele estava saindo do colégio e parou para esperar o sinal fechar para os veículos para atravessar a avenida Rio Branco.
Outra estudante veio com uma velocidade maior e bateu atrás dele. Com o impacto, ele foi arremessado para frente e caiu com o joelho no chão.
Como foi o atendimento depois do acidente?
Como ele tinha uma lesão no joelho, estava sentindo dor e não conseguia se locomover bem, a irmã o levou até o hospital, onde eu já estava esperando.
O senhor mesmo fez o atendimento?
Fiz o atendimento e radiografias e, depois, a ressonância confirmaram o diagnóstico. Foi preciso esperar sete dias para desinchar e eu mesmo fiz a cirurgia do meu filho.
Qual foi a gravidade da lesão?
Ele fez as lesões nos ligamentos e menisco. Ele ainda está fazendo fisioterapia até hoje. Foi algo sério. Tínhamos uma viagem de férias 15 dias depois e ele teve que ir de muletas. Por sorte não foi algo pior, mas ele sentiu o prejuízo.
Ele já voltou a praticar esportes?
De jeito nenhum. Vai demorar oito meses para jogar bola. Porque o ligamento precisa de um reforço muscular para jogar bola. Ele faz uma hora de fisioterapia e uma hora de treinamento muscular.
Mesmo sendo médico e conhecendo os riscos, o senhor permitiu que seu filho usasse a bicicleta elétrica?
Eu oriento em tudo, desde o início. Eu pedalo, faço triatlo. Então tenho uma experiência que sempre procurei passar para ele. Para se ter uma ideia, para pedalar nessa velocidade que a bicicleta elétrica atinge, o triatleta precisa estar extremamente concentrado, seguro, de capacete e de luva.
Mas o problema é que muitos ciclistas hoje desbloqueiam as bicicletas elétricas para que elas atinjam velocidades maiores.
Depois dessa experiência, o que o senhor pensa sobre o crescimento das bicicletas elétricas?
A verdade é que será preciso reforçar ainda mais a educação para o trânsito. As bicicletas elétricas são bons meios de transporte.
Mas o espaço de ciclovia é pequeno para a demanda. Para circular em uma avenida ela é lenta demais, já para circular em calçadas e ciclovias é rápida demais. É um veículo que ainda não se encontrou seu espaço.
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