Capixabas buscam soluções para impactos do clima
Monitoramento de rios, córregos, florestas e oceanos, além de proteção de área de manguezal, são alguns projetos
O clima está mudando e os efeitos já podem ser sentidos na saúde, na produção de alimentos, nas cidades, no mar e na rotina da população.
Diante do cenário de eventos extremos cada vez mais desafiador, cientistas capixabas trabalham em pesquisas que buscam entender o que está acontecendo e encontrar soluções para reduzir impactos no futuro.
Um dos projetos que tem sido desenvolvido no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) é uma ferramenta capaz de monitorar e informar, em tempo real, a situação de córregos e rios. O objetivo é que a tecnologia possa gerar alertas pelo celular a autoridades e comunidades sobre aumento súbito do nível dos rios.
O projeto Sistema Integrado de Monitoramento de Transbordos Hidrográficos (Simth) foi idealizado pelo professor de Computação no Ifes campus Guarapari Cayo Magno da Cruz Fontana.
Ele revelou que a tecnologia teve como principal motivação eventos que ocorreram no Sul capixaba.
Cayo explicou que o sistema já está funcionando em ambiente experimental. “Cada córrego poderá ter um ou vários pontos monitorados. Para cada ponto, há um equipamento de monitoramento – uma placa soldada, adequada em uma caixa com vedação dos fios – e um sensor”.
Segundo o professor, essa massa de dados gerada é importante para a realização de previsões futuras, aplicando algoritmos de aprendizagem de máquina e Inteligência Artificial.
Para sair do campo experimental, no entanto, o professor afirma que é preciso dialogar com prefeituras interessadas no projeto.
A professora do Departamento de Oceanografia e Ecologia e do Programa de Pós-Graduação em Oceanografia Ambiental da Ufes Kyssyanne Oliveira destacou que as mudanças climáticas já provocam alterações em várias partes do planeta.
Segundo ela, o aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, principalmente dióxido de carbono e metano, tem elevado a temperatura e contribuído para a intensificação de eventos extremos.
Entre os impactos já observados, cita a perda de biodiversidade, aumento de perdas humanas relacionadas a eventos climáticos e alterações nos oceanos.
Ela ressalta a importância de pesquisas voltadas a identificar os mecanismos de influência das mudanças climáticas.
Aquecimento global
O professor do Ifes Cariacica Felipe Zamborlini Saiter participa de dois projetos de monitoramento de efeitos do aquecimento global.
Um deles é o PPBio Restinga, financiado pelo CNPq, que reúne instituições de diferentes Estados. No Espírito Santo, são monitoradas áreas no Parque Paulo César Vinha e na Reserva Biológica de Comboios. “Queremos compreender, dentre outras coisas, efeitos do aquecimento sobre a biodiversidade da restinga”.
O segundo, desenvolvido em parceria com o Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes), cria uma rede de monitoramento florestal na região Centro-Serrana do Estado.
“O que já observamos em uma parcela – monitorada há 30 anos – é que, nesse período, tivemos um decréscimo de 2% no número de espécies de árvores”, destacou.
Estudo monitora oceano durante 10 anos
O mar do Espírito Santo está mais quente, e o aquecimento já começa a deixar marcas na biodiversidade marinha, que inclui peixes, recifes, algas e microrganismos.
A constatação faz parte dos primeiros resultados de um estudo realizado por cientistas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que monitora há uma década mudanças climáticas e os impactos no oceano.
O trabalho é feito em uma área de monitoramento permanente na região de Santa Cruz, em Aracruz, dentro da área de proteção ambiental Costa das Algas. Ele integra o Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração, iniciativa do CNPq que conta, no Estado, com apoio da Fapes.
Coordenado pelo professor Angelo Bernardino, do Departamento de Oceanografia da Ufes, o projeto acompanha mensalmente a biodiversidade e as condições ambientais da região.
Segundo o professor, são coletadas amostras de organismos e de imagens dos recifes para acompanhar mudanças na composição de comunidades marinhas. “Uma questão importante para estudar mudança climática é ter sítios de longo prazo. Porque temos oscilações naturais do ambiente, mas precisamos perceber tendências de aquecimento que a gente quer entender”.
E os primeiros resultados já mostram sinais de alerta. Na análise dos dados coletados entre 2017 e 2022, foram identificadas 22 ondas de calor marinhas – quando a temperatura da água fica acima da média histórica.
Um terço desses eventos durou mais de 15 dias, e alguns com temperaturas mais de 4 graus acima da média.
“É como se fosse um estado febril. Assim como o corpo humano sofre com temperatura elevada, organismos marinhos também enfrentam dificuldades. Durante as ondas de calor, um terço das espécies da região desaparece, principalmente macroalgas. Algumas não conseguem se recuperar depois”.
Além disso, oceano mais quente retém menos oxigênio e a água fica mais acidificada. “Isso dificulta a formação de conchas e estruturas de carbonato por organismos como corais e espécies de plâncton”.
As mudanças também podem contribuir para o aumento do nível do mar e afetar ecossistemas fundamentais para a vida marinha. “Recifes e manguezais, por exemplo, servem de abrigo, alimentação e reprodução para espécies de interesse comercial. A degradação desses ambientes pode atingir atividades econômicas e comunidades que dependem do mar”.
Proteção de manguezais
O projeto Vozes dos Manguezais, desenvolvido pelo Laboratório de Oceanografia e Clima do Ifes Piúma com apoio da Fapes, tem buscado entender e proteger áreas de manguezal em Guarapari. A iniciativa surgiu a partir de demanda da comunidade e reúne pesquisadores, estudantes e moradores em ações de diagnóstico, educação, restauração e ampliação das áreas. A equipe monitora manguezais da foz dos rios Una e Perocão e da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Concha D’Ostra, com coleta e análise de amostras de água, solo e plantas.
Segundo o professor do Ifes Marlon França, além de serem importantes para reprodução e alimentação de espécies, manguezais têm papel no combate às mudanças no clima. “É capaz de armazenar grande quantidade de carbono no solo. Com a destruição dessas áreas, o carbono pode voltar para a atmosfera, contribuindo para o aquecimento”.
Relação entre o clima e a transmissão da dengue
Uma pesquisa de iniciação científica da Multivix Vila Velha vai investigar como fatores ambientais e sociais podem estar relacionados à ocorrência de dengue no município. O estudo pretende cruzar dados de testes rápidos da doença com informações sobre temperatura, chuvas, bairro, idade e sexo dos pacientes, além de indicadores de saneamento.
A professora do curso de Biomedicina Ariely Lírio de Sousa Lacerda, orientadora do projeto, revelou que a proposta é avaliar testes entre novembro e fevereiro, quando há maior circulação da dengue, e verificar se alterações no regime de chuvas e temperatura favorecem a proliferação do Aedes aegypti. “Os resultados podem ajudar a identificar regiões e grupos vulneráveis e direcionar ações de prevenção”.
O estudo, coorientado por Livia Pálmer Marine, tem entre as participantes Marya Luiza Borcate, Thallyta Dias da Silva e Ketlyn Araújo de Oliveira.
O que está acontecendo com o mundo?
1. Calor mais intenso
- O aumento da temperatura média do planeta favorece ondas de calor mais frequentes, longas e intensas.
- O calor extremo afeta principalmente idosos, crianças e pessoas que trabalham ao ar livre e pode aumentar casos de desidratação, problemas cardiovasculares e respiratórios.
Daqui para frente
- Períodos de calor extremo podem se tornar mais frequentes, exigindo mudanças nas cidades, nos horários de trabalho e na forma de proteger a população.
2. Eventos extremos
- O aquecimento do planeta também interfere no ciclo da água.
- Em determinadas regiões, isso pode favorecer chuvas mais intensas em períodos curtos, aumentando o risco de alagamentos, enxurradas e deslizamentos.
Daqui para frente
- Eventos de chuva extrema podem exigir sistemas de alerta mais eficientes e cidades preparadas para absorver volumes maiores de água.
3. Nível do oceano em alta
- Os oceanos absorvem grande parte do calor adicional provocado pelo aquecimento global.
- O aumento da temperatura altera ecossistemas marinhos, enquanto a elevação do nível do mar – causada pelo derretimento de geleiras e pela expansão térmica – aumenta a vulnerabilidade das áreas costeiras.
Daqui para frente
- Cidades litorâneas poderão enfrentar mais erosão, inundações costeiras e impactos sobre pesca e turismo.
4. Comida e agricultura
- Secas, calor excessivo, chuvas intensas e alterações no regime de chuvas podem prejudicar plantações e aumentar a dificuldade de produzir determinados alimentos.
- Mudanças no clima também podem favorecer algumas pragas e doenças agrícolas.
Daqui para frente
- Produtores deverão buscar variedades mais resistentes, novas técnicas de cultivo e formas mais eficientes de usar água.
5. Preço no supermercado
- Os efeitos sobre a produção agrícola podem chegar diretamente ao bolso.
- Quando uma seca, enchente ou onda de calor reduz uma safra, a menor oferta pode pressionar os preços dos alimentos.
Daqui para frente
- Eventos extremos mais frequentes podem aumentar a instabilidade na produção e nos preços de determinados produtos.
6. Saúde afetada
- O calor extremo pode agravar doenças cardiovasculares e respiratórias e aumentar o risco de desidratação.
- Mudanças de temperatura e de chuva também podem alterar a distribuição de vetores e favorecer determinadas doenças infecciosas.
Daqui para frente
- Sistemas de saúde precisarão se preparar para períodos de calor mais intenso e para possíveis mudanças no comportamento de doenças relacionadas ao clima.
7. Cidades mais vulneráveis
- As áreas urbanas concentram população, concreto e asfalto, que retêm calor.
- Quando somados a chuvas intensas, ocupação de áreas de risco e problemas de drenagem, os efeitos do clima extremo podem ser ainda maiores.
Daqui para frente
- Cidades deverão investir em áreas verdes, drenagem, recuperação de florestas, áreas de restinga, rios e manguezais, planejamento urbano e outras formas de adaptação.
8. Infraestrutura ameaçada
- O calor extremo aumenta a necessidade de refrigeração e pode elevar o consumo de eletricidade.
- Tempestades, enchentes e deslizamentos também podem danificar estradas, pontes, redes elétricas e outros serviços.
Daqui para frente
- Infraestrutura terá de ser projetada considerando um clima mais quente e eventos extremos mais severos.
9. Pesca ameaçada
- O aquecimento dos oceanos pode alterar a distribuição e a abundância de espécies marinhas, afetando ecossistemas e comunidades que dependem da pesca.
- Ondas de calor marinhas também podem provocar mudanças importantes na biodiversidade.
Daqui para frente
- Pescadores e pesquisadores poderão precisar acompanhar cada vez mais as alterações no comportamento e na distribuição das espécies.
10. Turismo e litoral
- Praias, manguezais, áreas naturais e outros ambientes costeiros são diretamente afetados pelas mudanças no oceano e por eventos extremos.
- Além do impacto ambiental, isso pode atingir atividades econômicas ligadas ao turismo.
Daqui para frente
- Destinos turísticos costeiros terão de se adaptar à erosão, ao calor, às alterações dos ecossistemas e a eventos extremos.
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