Sonhos e planejamento
Planejamento financeiro também pode ser uma forma de tornar sonhos possíveis sem abrir mão da responsabilidade
Sátina Pimenta
Satina Pimenta é psicóloga, advogada e mestre em Administração, com atuação na interface entre Direito, Psicologia e Gestão. Docente, coordenadora acadêmica e pesquisadora, é Pró-Reitora e Coordenadora de Psicologia no Centro Universitário Estácio Vitória. Palestrante em saúde mental, lidera projetos acadêmicos e idealizou o app EmocionCare.
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“É em tempos como estes que aprendemos a viver de novo.” A ideia presente em “Times Like These”, do Foo Fighters, me acompanhou depois de uma experiência que esperei por muitos anos: fui ao Rio de Janeiro para viver um sonho de infância e participar do Rock In Rio. E, no meio daquela multidão, entre Foo Fighters, Barão Vermelho, Capital Inicial e toda a energia que só a música ao vivo consegue produzir, pensei que, curiosamente, até os sonhos precisam de planejamento.
Nos últimos tempos, muitos memes circulam pelas redes sociais com a frase: “Olha onde a minha irresponsabilidade financeira me levou”. A imagem seguinte costuma mostrar uma viagem, um festival, um restaurante especial ou alguma experiência aparentemente incompatível com a ideia de responsabilidade.
Confesso que acho engraçado, mas também fico me perguntando: será mesmo que gastar dinheiro com aquilo que desejamos é, necessariamente, irresponsabilidade? Eu penso justamente o contrário. Irresponsável não é realizar um sonho. Irresponsável pode ser viver sem qualquer consciência das próprias escolhas e, principalmente, das consequências que elas produzem. Eu me organizei para fazer essa viagem.
Planejei, escolhi, priorizei e decidi que queria viver aquela experiência. Sim, existem contas. Sim, existem parcelas. E elas serão pagas. A diferença é que eu sabia disso antes de fazer as malas. E dava conta!
Existe uma ideia estranha de que responsabilidade financeira significa abrir mão de tudo que nos dá prazer. Como se uma vida financeiramente organizada precisasse ser uma vida sem vida, sem nenhum desejo que ultrapasse o estritamente necessário.
Mas, afinal, para que organizamos a vida? Para simplesmente acumular recursos ou para termos condições de viver aquilo que consideramos importante?
A responsabilidade faz parte de nós porque somos responsáveis pelas consequências das nossas escolhas. Não existe liberdade sem consequência. Podemos escolher viajar ou não viajar, gastar ou economizar, adiar ou realizar um sonho agora. O que não podemos é fingir que as escolhas não produzem efeitos. A maturidade está justamente em compreender a própria realidade e decidir a partir dela.
E essa é a parte mais difícil. Porque existe sempre alguém olhando para a vida do outro e decretando o que é exagero, desperdício ou irresponsabilidade. O problema é que ninguém conhece melhor as nossas circunstâncias do que nós mesmos. Quando começamos a viver exclusivamente sob a expectativa do olhar alheio, corremos o risco de construir uma vida que parece responsável para os outros, mas que não faz sentido algum para quem precisa vivê-la.
Então, sim, fui ao festival. Vivi uma experiência incrível. Cantei, me emocionei e realizei um sonho que estava guardado há anos. Minha consequência financeira? Ela existe e será assumida. Mas existe também outra consequência: eu vivi algo que queria profundamente viver.
E, sinceramente, entre uma irresponsabilidade financeira e uma escolha consciente que me permitiu viver um sonho, fico com a segunda opção. Porque responsabilidade não é deixar de viver. Responsabilidade é saber o que estamos fazendo e, ainda assim, escolher viver.
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