Governo federal identifica 97 médicos falsos criados por IA
Conteúdos disseminam informações falsas, prometem tratamentos sem comprovação e, em alguns casos, ainda tentam vender produtos
Eles têm rosto, voz, jaleco e discurso de especialista, mas, na verdade, não existem. Uma força-tarefa levou o governo federal a identificar 97 perfis no YouTube que usam inteligência artificial para criar falsos médicos.
Os conteúdos disseminam informações falsas, prometem curas e tratamentos sem comprovação e, em alguns casos, ainda tentam vender produtos.
Os perfis foram identificados pelo programa Saúde com Ciência, do Ministério da Saúde, e levaram a Advocacia-Geral da União (AGU) a notificar o YouTube para que remova ou alerte os usuários sobre os vídeos no prazo de 72 horas.
O vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Jeancarlo Cavalcante, destaca que o uso da tecnologia para disseminar informações falsas pode representar um risco à saúde pública, principalmente quando leva pacientes à automedicação ou à realização de tratamentos sem orientação médica.
Entre os grupos mais vulneráveis a esse tipo de conteúdo estão os idosos. De acordo com o vice-presidente do CFM, isso ocorre tanto pela menor familiaridade de parte dessa população com as tecnologias quanto pelas próprias condições de saúde.
Ele alertou: “Os efeitos colaterais de um tratamento mal indicado, que não corresponda às suas necessidades, podem ter uma repercussão maior do que no paciente mais jovem.”
Para evitar cair em conteúdos produzidos por falsos profissionais, Cavalcante orienta o público a verificar o registro do médico: “Para publicar um vídeo na internet, todo médico deve informar o CRM dele. Com esse número, é possível checar na página do Conselho se ele existe.”
Na ausência da identificação, a recomendação é desconfiar. Para a presidente do Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES), Karoline Calfa Pitanga, um dos principais problemas é que esses perfis costumam recorrer ao sensacionalismo e a promessas milagrosas para vender tratamentos.
Segundo Karoline, alguns sinais podem ajudar a identificar conteúdos falsos, como a fala excessivamente correta e eventuais falhas de continuidade na imagem. Porém, ela admite que, para leigos, nem sempre é fácil fazer a análise: “O ideal é procurar um médico de confiança e buscar informações.”
A presidente do conselho explica ainda que a entidade mantém atualmente a campanha “CRM Esclarece”, com a publicação de dúvidas frequentes de pacientes nas suas redes sociais.
Você sabia?
Entrou em vigor em agosto uma nova resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que regulamenta o uso da Inteligência Artificial (IA) na medicina.
Entenda
Notificação
A Advocacia-Geral da União (AGU) notificou o YouTube para que remova ou alerte os usuários sobre uma série de vídeos que utilizam inteligência artificial para simular médicos e outros profissionais de saúde e disseminar informações falsas, incluindo promessas de curas e tratamentos sem comprovação científica.
Na notificação, a AGU dá um prazo ao YouTube de 72 horas para atender aos pedidos.
Perfis
A medida foi tomada a partir de análise do programa Saúde com Ciência, do Ministério da Saúde, de 97 perfis com esse tipo de conteúdo identificados entre 1º de janeiro e 10 de julho deste ano.
O programa acompanha redes sociais, realiza checagens de informações e encaminha denúncias aos órgãos competentes.
Como a IA é usada
Segundo o Ministério da Saúde, os conteúdos identificados usam avatares de aparência humana apresentados como médicos ou especialistas, atribuem qualificações profissionais fictícias e recorrem à linguagem alarmista para conferir credibilidade às informações.
Parte dos perfis é direcionada especialmente à população idosa e, em alguns casos, utiliza a aparente autoridade dos personagens para promover produtos, e-books ou serviços pagos.
Muitos vídeos costumam começar com frases alarmantes, como “se você tem mais de 60 anos, precisa saber disso”.
Em seguida, apresentam supostas descobertas científicas escondidas, alertas sobre medicamentos tradicionais ou promessas de cura para doenças como diabetes, hipertensão e Alzheimer.
Investigações
Além da notificação, as informações também foram encaminhadas à Polícia Federal e ao Conselho Federal de Medicina (CFM).
Riscos
Prejuízo financeiro – já que muitas vezes envolve a venda de algum tipo de solução, suplemento ou vitaminas.
Possibilidade de abandonar tratamentos prescritos, interromper medicamentos importantes ou adotar substâncias sem eficácia e até perigosas para a saúde.
Sinais de vídeos falsos
- Promessas de cura rápida;
- Discurso alarmista e sensacionalista;
- Venda de um único produto como solução para diversos problemas;
- Falta de identificação clara do profissional;
- Alegações de que médicos ou a indústria escondem “curas secretas”.
Conferência
“Com a evolução da IA generativa e a sua democratização, em poucos cliques ficou fácil e rápido criar conteúdo que parece verídico até mesmo para quem é da área e não checou a referência. O hábito deve ser conferir quem assina, porque o rosto na tela deixou de ser prova de qualquer coisa”, diz Eduardo Glazar, CSO da Globalsys e professor de IA na Fucape.
Problemas complexos
“Esses vídeos criados por IA têm preocupado. Geralmente, eles vêm com frases sensacionalistas como ‘A indústria farmacêutica não quer que você saiba’ ou ‘Com anos de experiência, eu descobri isso que os médicos não querem te contar’. É preciso desconfiar de vídeos que trazem resultados simples para problemas de saúde complexos. O ideal é buscar informações com um médico de confiança”, afirma Karoline Calfa Pitanga, presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado (CRM-ES).
Crimes
“Se a IA reproduz a imagem, a voz ou a identidade de um médico real sem autorização, pode haver violação de direitos da personalidade. Mesmo quando o suposto médico é inteiramente fictício, a prática pode configurar ilícitos, especialmente diante do risco à saúde e da possibilidade de indução do consumidor em erro”, pontua Carlos Augusto Pena da Motta Leal, presidente da Comissão de TI e Direito Digital da OAB-ES.
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