Efeitos do excesso de IA aparecem no aprendizado
Uso exagerado de Inteligência Artificial faz estudantes dependerem de respostas prontas, reduz esforço ativo e fragiliza memória e aprendizagem.
Na educação, os efeitos do excesso de Inteligência Artificial também já estão aparecendo. Em poucos segundos, os estudantes conseguem ter acesso a diversos tipos de informações, mas não necessariamente estão aprendendo os conteúdos.
“Vemos que os alunos recebem muita informação e armazenam de forma superficial apenas para fazer a prova, mas depois os conceitos se perdem, como se não soubessem o que fazer com isso”, diz Lorena Bezerra Vieira, coordenadora do curso de Pedagogia da Estácio e mestre em Educação.
Por isso, a especialista explica que o uso excessivo dessas tecnologias está mudando a forma com que crianças e adolescentes aprendem nas escolas.
“Os professores relatam que os estudantes querem os conteúdos cada vez mais 'mastigados'. Assim, eles usam menos o que chamamos de esforço ativo, o processo de tentar lembrar um conceito, organizar informações ou redigir uma ideia. A longo prazo, isso se torna prejudicial ao aprendizado”.
E os efeitos na memória também ajudam a piorar esse cenário. “A memória humana trabalha muito nessa lógica de 'eu uso ou eu perco'. Então, se o aluno deixa de treinar ou utilizar alguns conceitos ele pode perder repertório e, ao mesmo tempo, ter mais dificuldade para lidar com ideias mais complexas”, ressalta Lorena.
O psicopedagogo Rogério Maia alerta ainda para uma “ilusão de competência”, quando o estudante tem acesso à resposta pronta e acredita que domina determinado conteúdo.
“O aluno acha que sabe porque a resposta apareceu na tela, mas, na verdade, a habilidade de resolver aquele problema continua sendo da máquina, não dele”.
E um dos sinais de que o uso está prejudicando o aluno é quando o estudante passa a depender excessivamente da IA para realizar as atividades, segundo a neuropsicopedagoga Geovana Mascarenhas.
“O aluno se habitua a perguntar para a IA antes mesmo de tentar fazer sozinho. Uma forma de identificar é comparar a elaboração dos trabalhos com o desenvolvimento oral do estudante”.
Apesar dos alertas, Lorena Bezerra Vieira defende que as tecnologias podem e devem ser utilizadas como apoio.
“Penso que devemos usar de forma equilibrada, investindo na formação de professores para que eles saibam aplicar essas ferramentas. Depois que o conhecimento foi trabalhado e apropriado pela criança, podemos incorporar as telas e outras tecnologias”.
Dicionários
A dona de casa Bruna Dutra, 43 anos, incentiva os seus filhos Beatriz, 8, e Heitor, 11, (na foto) a realizarem as tarefas de casa sem Inteligência Artificial.
Ela conta que algo que eles sempre usam são os dicionários. O motivo da decisão, de acordo com Bruna, é a preocupação com o desenvolvimento das crianças. “Claro que, quando precisamos, essas tecnologias ajudam. Mas vejo que as pessoas não conseguem mais pensar sozinhas e não quero isso para eles”.
Família deve incentivar o uso consciente
Se na escola o desafio é ensinar o aluno a usar a Inteligência Artificial sem deixar de pensar, em casa a orientação deve seguir a mesma linha.
Especialistas defendem que as famílias observem como crianças e adolescentes recorrem às tecnologias e incentivem momentos em que eles precisem buscar respostas por conta própria.
O psicopedagogo Rogério Maia diz que a solução não está na proibição, já que a IA faz parte da realidade, mas na adoção de uma espécie de “higiene digital” durante os momentos de aprendizagem.
“É importante incentivar o estudo com métodos analógicos, como anotações à mão, mapas mentais no papel, leitura e refazer as questões trabalhadas em sala de aula, além de criar momentos de desconexão em casa”.
O acompanhamento dos pais também deve ir além de conferir se a tarefa foi concluída.
“É muito importante observar como eles estão estudando. Ao invés de apenas verificar se a tarefa foi concluída é preciso perguntar ao estudante como ele chegou a essa resposta”, adiciona Rogério.
Isso porque, de acordo com a neuropsicopedagoga Geovana Mascarnehas, recorrer imediatamente à IA pode fazer com que o estudante deixe de passar por etapas importantes.
“Para que a informação se transforme em aprendizagem, é necessário processá-la, relacioná-la, recuperá-la e utilizá-la para resolver os problemas. Se o estudante recorre ao celular sempre que busca a informação, o processo de resolução não acontece, logo, a aprendizagem se torna frágil”.
A tecnologia, então, deve servir de apoio, ajudando que o conteúdo se torne mais acessível, desde que o aluno continue participando ativamente do processo.
“Não basta apenas fazer um resumo ou mapa mental através da IA, é preciso compreender a informação daquele resumo ou daquele mapa mental” diz Geovana.
Para a neuropsicopedagoga, a chave do uso consciente está no equilíbrio. “Cabe a cada família estabelecer esse limite entre o pensar e o estar pronto. Como qualquer tecnologia, deve prevalecer o limite, o bom senso e a sabedoria”.
Como proteger sua memória
Atividades que podem ajudar
Exercite o cérebro
Leia, aprenda coisas novas, faça palavras cruzadas e aprenda novos idiomas.
Anote à mão
Priorize escrever listas, resumos e anotações no papel para estimular a memória e a elaboração.
Menos notificações
Evite alternar entre várias tarefas quando precisar se concentrar ou aprender algo.
Tempo offline
Reserve períodos sem celular ou outras tecnologias, principalmente em momentos de descanso.
Use a IA com critério
Tente pensar, lembrar ou resolver primeiro. Depois, use a ferramenta apenas para tirar dúvidas.
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