“Precisamos criar geração de jovens mais curiosos”
Renato Casagrande defende que o professor deve usar empatia para ajudar aluno a imaginar e também a estruturar o pensamento
Para manter educação de qualidade e garantir o aprendizado de estudantes durante a era da falta de atenção, é necessário estimular a curiosidade dos alunos através da sensibilidade e empatia humana.
Quem defende a afirmação é Renato Casagrande, doutor em Educação, escritor, pesquisador e palestrante que participou recentemente do 14º Congresso Educacional das Escolas Particulares do Espírito Santo.
Casagrande apresentou a palestra “Aprendizagem baseada em projetos: desenvolvendo a criatividade e a autonomia dos alunos”.
Durante o encontro, o educador discorreu a respeito de práticas educacionais importantes para que o professor consiga estimular o aprendizado entre os alunos, assim como a necessidade de adaptação às novas tecnologias utilizadas por crianças e adolescentes.
A Tribuna - Vivemos uma época em que a informação é abundante e de fácil acesso, e a curiosidade diminui na mesma proporção. Na sua avaliação, é preciso criar uma geração de jovens mais curiosos?
Renato Casagrande - Com certeza. Não é apenas a curiosidade que está diminuindo, a imaginação também. Nós, professores e educadores, estamos muito preocupados com a chegada da Inteligência Artificial, porque vamos disputar um espaço. Será o intelecto humano contra a tecnologia.
Quando o professor utilizar a sensibilidade e empatia para ajudar a criança a imaginar, com menos telas e mais livros, ajudar o aluno a estruturar o pensamento, a desenvolver projetos criativos a partir da imaginação e de um bom repertório, isso sim vai fazer toda a diferença. Lembrando que esses projetos têm que ser desenvolvidos fora do ambiente virtual, no espaço offline.
O desenvolvimento educacional fora do ambiente digital contribui para o aprendizado?
Na verdade, as práticas e projetos educacionais analógicos são necessárias mais do que nunca. Hoje em dia nós temos muitas tecnologias e metodologias, e esse excesso pode se tornar um problema. Por vezes, a criança entrega um trabalho, mas não aprende. E isso é um risco muito grande hoje em dia. Antigamente, quando o aluno entregava um trabalho, significava que ele tinha aprendido, porque teve que realizar a tarefa, fazer sozinho. E hoje não, a entrega já não é mais uma demonstração de aprendizagem, porque ele pode ter tido o auxílio da tecnologia e da Inteligência Artificial. Pode ser o melhor projeto do mundo, mas a pergunta que devemos fazer é: o aluno aprendeu? Porque o principal objetivo de nós, professores, é a aprendizagem.
O que o professor pode fazer para garantir a aprendizagem dos alunos?
Quando o educador desenvolve um projeto, um trabalho escolar, é necessário saber formar grupos entre os alunos. Não é simplesmente deixar eles se agruparem como quiserem, o professor precisa saber conduzir. Isso é uma das grandes responsabilidades do professor.
É saber como o aluno aprende. Não basta mais o profissional ter interesse em dar aula, não basta ler e estudar. É preciso que ele saiba que faz parte de um novo cenário, e que precisa lidar com novas metodologias, com famílias desestruturadas, com problemas que afligem os pais, e com a sociedade em geral. E o mais importante: é preciso saber lidar, e dominar, a tecnologia.
Por que professores e educadores devem dominar a tecnologia?
Vamos pegar o exemplo do Discord. Recentemente, essa plataforma, utilizada para conversas virtuais e com utilização de vídeo, se envolveu em polêmica por transmissões com pessoas se colocando em perigo de vida. O professor tem que entender o Discord, nós não podemos dizer que não gostamos dessa plataforma. Porque essa nova tecnologia está impactando o comportamento dos nossos alunos, e o nosso também. E eu estendo isso para os pais e mães também.
Eles não podem se dar o luxo de dizer “eu não entendo disso”, porque, se não entenderem, se não dominarem, não vão conseguir acompanhar o que o filho está fazendo, o que ele está consumindo no ambiente virtual.
O que é necessário para viabilizar que o educador domine as novas plataformas virtuais e também a IA?
As escolas ainda necessitam de estrutura. Nós trouxemos a tecnologia para dentro da escola, como outras empresas trouxeram. Mas na escola, quanto mais tecnologia, mais suporte os professores vão precisar. E isso traz custo para a escola privada, para o governo.
Então, ao pensar em inserir novas tecnologias de aprendizagem, é necessário, também, pensar no ecossistema educacional, e principalmente em uma base de apoio para o profissional da educação. O professor está na sala de aula todos os dias, convivendo com a diversidade de alunos, e não é com discursos lindos que vamos melhorar a qualidade do aprendizado e dos projetos educacionais.
Perfil
Renato Casagrande
Doutor em Educação pela Universidade de Aveiro, em Portugal, é mestre e bacharel em Administração pela Fundação Getúlio Vargas, além de especialista em Liderança Educacional pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos.
Licenciado em Ciências Naturais e Matemática, construiu uma trajetória de mais de 30 anos dedicada à educação, com atuação na gestão de redes públicas e privadas.
O educador também é autor e coautor de 10 livros nas áreas de educação e de gestão.
MATÉRIAS RELACIONADAS:
Comentários