Seu banco ajuda ou só vende?
Com 82% das famílias brasileiras endividadas, a tecnologia financeira precisa fazer mais do que facilitar o próximo clique
Tasso Lugon
Tasso Lugon é CEO da Banestes DTVM e especialista em tecnologia, inovação e transformação digital. Reconhecido nacionalmente, lidera projetos que unem setor público e financeiro para gerar impacto e inclusão. Sua trajetória inclui passagens pelo Tribunal de Justiça do ES, Ministério Público Estadual, Prefeitura de Vila Velha e Governo do Estado, sempre promovendo modernização e resultados.
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Pagar uma conta pelo celular, fazer um Pix em segundos ou contratar um serviço sem entrar em uma agência já virou rotina. O sistema financeiro ficou mais rápido, simples e digital. Mas isso levanta uma pergunta incômoda: toda essa tecnologia está ajudando as pessoas a cuidar melhor do próprio dinheiro ou apenas tornando mais fácil gastar, contratar e parcelar?
Em julho de 2026, 82% das famílias brasileiras tinham dívidas a vencer, segundo a CNC. A inadimplência estava em 29,8%, e 19% das famílias já comprometiam mais da metade da renda mensal com dívidas.
Ter dívida não é necessariamente um problema. Crédito faz parte da vida e da economia. O alerta aparece quando a pessoa perde a visão do todo: quanto já está comprometido, qual será o impacto de uma nova parcela e até onde o orçamento aguenta.
É justamente aí que a tecnologia pode fazer mais.
O Open Finance brasileiro já soma 116 milhões de autorizações de compartilhamento de dados. Na prática, é um sistema que permite, com autorização do cliente, reunir informações de diferentes instituições e construir uma visão mais completa da sua vida financeira.
Isso pode significar muito mais do que gráficos bonitos no aplicativo. A tecnologia pode alertar sobre mudanças no padrão de gastos, mostrar o peso de uma nova dívida no orçamento, ajudar na formação de reservas ou apresentar opções de crédito com mais contexto.
O próprio Banco Central vem reforçando essa direção ao determinar que instituições financeiras adotem medidas de educação financeira que ajudem no planejamento do orçamento, na formação de poupança e na prevenção do superendividamento.
Isso muda a conversa.
Durante muito tempo, inovar significou reduzir etapas: menos papel, menos fila, menos espera. Essa transformação foi necessária. Agora, talvez precisemos avançar para uma segunda etapa: usar a tecnologia não apenas para facilitar uma decisão, mas para ajudar a pessoa a entender se aquela decisão faz sentido.
Uma experiência digital pode ser excelente porque permite contratar crédito em poucos cliques. Mas rapidez não é sinônimo de boa decisão.
A próxima grande inovação financeira talvez não seja um novo aplicativo ou uma transação ainda mais rápida. Pode ser algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil: usar dados e tecnologia para ajudar cada pessoa a enxergar melhor o próprio dinheiro.
No fim, a pergunta é direta: o quanto uma instituição conhece o cliente para vender algo a ele, e o quanto usa esse conhecimento para ajudá-lo a escolher melhor?
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