Seu filho já sabe gastar?
Expostas a anúncios e compras por um toque, crianças precisam aprender limites, escolhas e consequências em conversas simples do dia a dia
Tasso Lugon
Tasso Lugon é CEO da Banestes DTVM e especialista em tecnologia, inovação e transformação digital. Reconhecido nacionalmente, lidera projetos que unem setor público e financeiro para gerar impacto e inclusão. Sua trajetória inclui passagens pelo Tribunal de Justiça do ES, Ministério Público Estadual, Prefeitura de Vila Velha e Governo do Estado, sempre promovendo modernização e resultados.
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As crianças de hoje aprendem a navegar em aplicativos, assistir a vídeos e escolher o que desejam muito antes de entender como o dinheiro funciona.
Em poucos segundos, elas são expostas a anúncios, influenciadores, jogos, assinaturas e compras digitais. O consumo chega cedo. A consciência financeira, nem sempre.
Por isso, educação financeira não pode começar apenas quando o jovem recebe o primeiro salário. Ela precisa nascer dentro de casa, nas situações mais simples: no supermercado, na escolha de um presente, no planejamento de um passeio ou naquele pedido feito por impulso.
Ensinar uma criança a lidar com dinheiro não significa transformá-la em especialista em investimentos. Significa ajudá-la a compreender que os recursos são limitados, que toda escolha tem consequência e que comprar uma coisa, muitas vezes, exige abrir mão de outra.
Durante muito tempo, o cofrinho foi o principal símbolo desse aprendizado. Ele continua válido, mas já não basta. Hoje, o dinheiro está cada vez menos visível. Está no cartão, no celular, no clique e no pagamento instantâneo. Quanto mais fácil se torna gastar, mais importante passa a ser ensinar a parar, pensar e decidir.
Uma boa forma de começar é conversar sobre necessidade, desejo e desperdício. Não como regras rígidas, mas como perguntas: eu realmente preciso disso? Vou usar? Posso esperar? Existe uma opção melhor? Essas pequenas reflexões ajudam a construir um comportamento que fará diferença na vida adulta.
Também é importante dar autonomia de forma gradual. Uma pequena mesada ou um valor destinado a uma atividade específica pode ensinar planejamento, comparação e responsabilidade. E, quando a criança gastar mal, nem sempre os pais devem repor imediatamente o dinheiro. O erro, quando ocorre em um ambiente seguro, também educa.
A tecnologia não é inimiga. Aplicativos e contas digitais podem ajudar no aprendizado, desde que não substituam a conversa. O mesmo vale para a escola, que pode abordar o tema de forma prática, relacionando dinheiro a consumo, cidadania, sustentabilidade, golpes e proteção de dados.
Para quem atua no mercado financeiro e de tecnologia, há ainda uma responsabilidade maior. Produtos digitais precisam ser simples, seguros e transparentes, especialmente quando alcançam públicos mais jovens.
Facilitar o acesso sem estimular o uso consciente é criar conveniência sem maturidade.
No fim, o maior patrimônio que uma família pode deixar não é apenas dinheiro. É a capacidade de fazer boas escolhas. Em uma época em que gastar exige apenas um toque, ensinar uma criança a pensar antes de comprar talvez seja uma das lições mais valiosas para o futuro.
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