O retorno do cigarro
Ensaio discute como o cigarro voltou a ser visto como bonito e sexy entre jovens, apesar de décadas de alerta sobre os riscos do tabagismo
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Num cartoon recente de André Dahmer, a legenda diz: “Os tabagistas são os novos maconheiros”. Nos quadrinhos, dois homens fumam escondidos e, paranoicos, imaginam ouvir alguém que se aproxima e flagra-os em pleno ato proibido.
Quem foi jovem entre os anos 80 e 90 reconhece a sensação: após um longo período em que quase todos fumavam, inclusive as crianças (de modo passivo), quando os cinzeiros já eram onipresentes, integrando a arquitetura das poltronas de teatros e aviões, veio o tempo em que a indústria do tabaco perdeu a plena hegemonia (ou ditadura, pois, até a década de 50, muitos médicos não só prescreviam cigarros, como também eram garotos propaganda – no sentido estrito – de uma das marcas).
Em meados dos anos 80, a OMS intensificou as ações contra o tabagismo ensaiadas após a Segunda Guerra, mas somente em 1996 a Lei Antifumo proibiu fumar em ambientes públicos fechados e veicular propaganda. Desde os anos 50, porém, pesquisas já apontavam o tabaco como principal causa evitável de câncer. Hoje, ele é responsável por 30% dos óbitos pela doença e por 90% dos óbitos por câncer de pulmão, considerado o mais letal.
No final da década de 90, “Fumar faz mal à saúde” começou a constar da lateral dos maços. Nos anos seguintes, imagens de pessoas com câncer, calvície e impotência passaram a contrastar, no imaginário dos consumidores, com a memória de comerciais em que supostos atletas apareciam tragando após escalarem uma montanha. Aliada a ações de menor impacto visual e maior resultado econômico, como o aumento da taxação sobre o produto, a campanha, que hoje soa inócua, fez com que muitos vencessem a dependência. O ato de fumar converteu-se de símbolo de charme a ícone da cafonice e da ausência de autocuidado. Em diversos círculos sociais, fumantes eram malvistos; um beijo com sabor de fumaça seria rechaçado sumariamente.
Por isso, o cartoon em que os tabagistas são perseguidos (real ou imaginariamente) espelha melhor aqueles anos de enfrentamento do que o momento atual, em que o hábito retornou com força e não parece sofrer tanta rejeição, sobretudo entre os mais jovens. A não ser que a anedota queira destacar, comparativamente, a ascensão da cannabis. De todo modo, ela ilustra bem a alternância no modo como é visto o hábito de fumar, geração após geração.
Hoje, fumar é considerado bonito, por uns, e sexy (além de barato!) por outros. É como se retornássemos aos anos 50 – com a diferença de que acumulamos décadas de divulgação de estudos sobre a relação entre o fumo e certas doenças. E pode ser que a exposição contínua a essas informações tenha neutralizado a sensibilidade de quem já nasceu sob a égide da restrição.
Considerados esses dados, não deveríamos discutir as razões pelas quais o ato de fumar tem tanto apelo, hoje, entre os mais novos? Analisar as causas pode ser um primeiro passo para tentar minimizar os danos que serão provocados numa geração inteira de futuros adultos que começaram a fumar na década de 2020.
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