Cultura nerd deixa de ser hobby e vira negócio de sucesso
Empreendedores contam como o interesse pela cultura geek se transformou em negócio, deixando de ser só consumidor para criar produtos e serviços
Quando era criança, Lukas Schultheiss queria fazer mais do que assistir a animes. Queria reproduzir os pratos e roupas que apareciam nas histórias. A curiosidade atravessou a infância, virou hobby na adolescência e, anos depois, se transformou em negócio.
Hoje, aos 40 anos, o empresário é dono da Yaz, que, segundo ele, é a primeira doceria geek e oriental do Espírito Santo. O caso dele faz parte de um movimento maior. Impulsionados pelo crescimento da cultura geek — que reúne animes, quadrinhos, doramas, jogos de tabuleiro, RPG e games — empreendedores capixabas têm transformado a paixão pelo universo nerd em negócios de sucesso.
“Desde pequeno eu lia gibis e assistia animes. Mas meu interesse ia além das histórias. Eu queria saber o que eles estavam comendo e vestindo. Queria reproduzir”, conta Lukas.
Na vida adulta, ele frequentava eventos geek e fazia cosplay, ou seja, se caracterizava como personagens. Por muitos anos, esse foi um hobby praticado nas horas vagas, enquanto trabalhava como jornalista. Até a pandemia.
Foi nessa época, diz Lukas, que começou a vender doces e alimentos orientais pela internet, os mesmos que via nos desenhos japoneses. “Quatro anos atrás abrimos a primeira loja física”.
Hoje, a Yaz tem três lojas que vendem sorvetes, doces, pratos típicos e outros alimentos de 12 países orientais. O faturamento anual chega a R$ 1,5 milhão. Duas unidades funcionam nos shoppings Mestre Álvaro e Moxuara. A mais recente é um bistrô no centro de Vitória.
“No bistrô temos dias em que o cliente come o mesmo prato que aparece em um anime ou dorama. Eu queria proporcionar essa experiência que não tive quando era criança.”
Para Thiago Cury, coordenador do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM, o crescimento do mercado geek é resultado de uma combinação de fatores.
Entre eles, o fato de antigos fãs terem chegado ao mercado de trabalho, conquistado poder de compra e levado as empresas a perceberem o potencial financeiro desse público.
Além disso, explica, o avanço da tecnologia facilitou que fãs criassem produtos e conteúdos voltados ao próprio público geek, abrindo espaço para que muitos deles passassem a trabalhar nesse mercado.
Jogo acaba de ser lançado
Henrique Teodoro, 29, é desenvolvedor de jogos e, no fim de julho, lançou seu primeiro título, chamado Infinitevania, no maior evento de retrogames do Brasil, em São Paulo.
Ele conta que levou cinco anos para ele e a equipe da JHT Games, estúdio que criou com um sócio, concluírem o projeto. Enquanto desenvolviam o jogo, a equipe trabalhava em outras funções. Henrique, por exemplo, era garçom.
“Conseguimos uma wishlist, que reúne pessoas interessadas em comprar o game, com 25 mil nomes. O jogo está vendendo bem no mundo inteiro.”
“Tenho esculturas espalhadas pelo mundo”
Faz décadas que Heleno Lyra trabalha no mercado geek. Aos 47 anos, ele é artista plástico, dono do Eight ArtStudio e um de seus trabalhos é fazer esculturas de personagens de jogos, histórias em quadrinhos (HQ) e animes a pedido de colecionadores.
“Tenho esculturas de personagens espalhadas pelo mundo inteiro”, diz.
A maior comissão do mundo geek que já recebeu foi de uma estátua do homem-aranha. Um grupo de colecionadores brasileiros lhe pediu para fazer 30 cópias de uma cena de um quadrinho. Gostaram tanto, conta, que pediram mais 30. O projeto levou dois anos, com Heleno o intercalando com outros. O pagamento foi de R$ 60 mil.
Mas a história do artista tem muito mais que isso. Heleno conta que foi teoricamente o primeiro cosmaker do Espírito Santo. “É o cara que faz as fantasias, máscaras e armas para o cosplay. Então, de 2006 a 2010, fui cosmaker e estandista em eventos. A gente produzia acessório, bicho de pelúcia, máscara, o que podíamos comercializar, fazíamos”, lembra.
Viajou para eventos no Estado inteiro e, em 2010, abriu a primeira loja de anime de Vitória.
Mas, até 1997, a ideia era trabalhar na Marvel, desenhando HQ. Ele até fez um curso onde produziu sua primeira, que guarda até hoje, e começou a pesquisar mais o assunto. Isso o levou a uma reportagem sobre a primeira pessoa a profissionalizar, com licença, as esculturas de personagem. “Peguei umas caixinhas de durepox, comecei a modelar e fui vender na feirinha hippie de Guarapari”.
Hoje, sua renda vem do estúdio e de ensinar a outros que, como ele, no passado, querem aprender a modelar ou desenhar.
Café com conexão
O Café Geek em Vila Velha é o negócio da Rosangela Lima, 56, e de seu marido, José Antônio Tose, 59. Ele une cafeteria com um acervo dos mais variados jogos.
“As pessoas podem reunir amigos, conhecer novos jogos, participar de eventos, comemorar aniversários e aproveitar cafés, bebidas e comidas”, conta Rosangela.
A ideia surgiu na pandemia, quando um amigo apaixonado pelo mundo geek levou jogos de tabuleiro para a família jogar.
“Mais do que uma cafeteria, queremos ser um espaço de encontro e conexão entre pessoas”, conta a empreendedora.
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