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De Sócrates a Jefferson, da colonização ao Terror, episódios mostram como ideais elevados muitas vezes serviram de fachada para dominação
Pedro Valls Feu Rosa
Pedro Valls Feu Rosa é desembargador ex-presidente do TJES e do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo. Bacharel em Direito pela UFES, é autor de obras jurídicas e idealizador de projetos inovadores como o “Botão do Pânico”, vencedor do Prêmio Innovare.
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Atenas é celebrada como o berço da democracia, da liberdade de expressão e do debate público. No entanto, em 399 a.C., essa mesma sociedade democrática condenou o filósofo Sócrates à morte por cicuta. O crime real de Sócrates foi questionar o status quo, expor a ignorância dos governantes e fazer a juventude pensar por si mesma. A “tolerante” Atenas provou que sua liberdade de expressão só se aplicava a quem não incomodasse o poder.
Em 1776, Thomas Jefferson escreveu uma das frases mais célebres da humanidade: “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais”. No entanto, enquanto redigia a promessa de liberdade e direitos inalienáveis, Jefferson foi dono de mais de 600 escravos ao longo de sua vida. Ele não apenas manteve a escravidão em suas propriedades, como libertou apenas uma fração minúscula deles em seu testamento.
No século XIX, as potências europeias (Reino Unido, França, Bélgica, entre outras) justificaram a invasão, partilha e colonização da África e da Ásia sob o pretexto de uma “missão civilizatória”. O argumento era o de que o homem branco tinha o dever moral de levar a ciência, o cristianismo e o progresso aos povos “selvagens”. Por trás dessa fachada humanitária escondia-se um dos maiores saques de recursos naturais da história, acompanhado pelo extermínio de populações locais e pela escravização de fato, como ocorreu no Congo Belga do rei Leopoldo II.
Durante a Idade Média e o Renascimento, a Igreja Católica pregava o desapego material, a caridade e a virtude de uma vida modesta, baseando-se nos ensinamentos de Jesus Cristo sobre a dificuldade de um rico entrar no Reino dos Céus. Paralelamente, a instituição vendia “indulgências” — a comercialização do perdão divino em troca de dinheiro — para financiar o luxo papal, explorando o medo espiritual dos mais pobres.
A Revolução Francesa começou com o ecoar de três palavras sagradas: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Maximilien Robespierre, um dos principais líderes do movimento, era conhecido como “O Incorruptível”, e era um opositor ferrenho da pena de morte. No entanto, ao assumir o poder durante a fase do “Terror” (1793–1794), Robespierre traiu todos os seus princípios originais, suspendendo as liberdades civis e enviando mais de 17.000 pessoas à guilhotina, sob a justificativa de “proteger a virtude” da República.
Quando o Partido Nacional da África do Sul institucionalizou o Apartheid, em 1948, o governo justificou a segregação racial e a violência estatal contra a maioria negra como uma medida necessária para “proteger a civilização ocidental cristã” e manter a “ordem divina”. O uso da teologia e de discursos sobre moralidade religiosa para privar milhões de pessoas de seus direitos humanos mais básicos tornou-se um dos exemplos mais cruéis de hipocrisia estrutural do século XX.
Coisa pavorosa, a hipocrisia! Acompanha a humanidade desde os seus primórdios. Será que ainda está na área, a gargalhar impunemente de todos nós?
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